Ó
Copyright Pedro Barbosa, 2001
O
computador como máquina semiótica
Pedro Barbosa
(com a colaboração de José
Manuel Torres)
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Os
dois trabalhos aqui reunidos num corpo único operacionalizam um conceito de
texto como “motor de sentidos” e propõem um uso do computador como “máquina
manipuladora de sinais”, ou seja como “máquina semiótica”. Um gerador
textual automático como o que a seguir se apresenta parte destes dois
conceitos de base: 1) uma noção de texto como “estrutura geradora de
sentidos”; 2) uma dinâmica de sentidos assente num algoritmo informático
capaz de explorar um campo de possíveis semióticos. Da junção destas duas
noções nasce o Sintetizador Textual «Sintext», aqui descrito na sua versão
para a Web, e bem assim a noção de texto virtual ou texto generativo,
concebido como “motor textual”, ou seja, como “texto em processo”
infinitamente renovável. Tudo isto no âmbito da Literatura Gerada por
Computador (LGC) ou, mais genericamente, no que já vem sendo designado como
“texto algorítmico”.
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Sumário
A Literatura
Gerada por Computador na sua vertente da "literatura generativa"
designa uma simbiose entre o computador e o autor no processo criativo, sendo a
máquina usada como um extensor automático de sentidos e não apenas como simples
armazenador e transmissor de informação.
A aplicação de
geração textual Sintext-Web, desenvolvida e descrita neste artigo,
representa, pela sua facilidade de utilização e acessibilidade através da
Internet, um instrumento potenciador da criatividade na ligação da Literatura à
Informática.
Abstract
Computer Generated Literature in its facet of
"generative literature" names a symbiosis between the computer and
the author during the creative process. In this case the machine acts as an
automatic extensor of the signs and not only as a simple information storage
and transmitter agent.
The text generation application Sintext-Web,
developed and described in this paper, represents, by its simplicity of use,
accessibility through the Internet, a tool capable of boosting the creativity
in the connection between Computer Science and Literature.
Projecto de “semiótica virtual”?
Faz tempo,
navegava na Internet e veio ter ao meu ecrã um quase manifesto contra a “velha
semiologia” e a favor de uma “semiótica virtual” (sic). Mas: semiótica virtual?
Entendamo-nos: talvez o redactor do artigo pretendesse dizer “semiótica do
virtual” ou “semiótica do mundo virtual”. Ou ainda, semiótica da cibercultura. Ah, web. web, web! Sempre tão volátil e tão virtual. O resultado
é hoje não me ser possível localizar de novo o referido texto nem poder citá-lo
com rigor.
Mas não há
dúvida de que estamos mergulhados num universo de sinais em que predomina o
estado virtual da maioria deles e que talvez a semiótica clássica não acolha da
melhor maneira no seu sistema de conceitos a categoria do virtual. Esta
realidade nova é particularmente flagrante no domínio das imagens. A grande
massa das imagens que recebemos já não provém do mundo das coisas ou do mundo
dos sonhos. E para o domínio da palavra algo de equivalente se está a passar:
este é o escopo do presente escrito. Nele se procura muito sinteticamente dar
conta de alguns aspectos comunicacionais novos que se colocam ao nível do texto
computacional quando a máquina labora em osmose semiótica com o ser humano:
aquilo que aqui se irá designar como texto automático, texto virtual
ou texto generativo.
Há que
incorporar no domínio dos sinais as novas angulações trazidas pela Inteligência
Artificial: uma intencionalidade diferida na comunicação humana, o grande magma
dos sinais digitais para onde tudo converge e de onde tudo diverge, sinais
virtuais lado a lado com sinais materiais, referencialidades originárias de
mundos de síntese, novos algoritmos de pensamento, percepção e sinalização.
Recordo ainda o
sentido apocalíptico com que se interrogava o autor do perdido manifesto: “Quem
seremos nesta nova esfera da existência, o mundo virtual?”
O ciberespaço
não é apenas uma nova tecnologia, mas uma nova forma de escrita e uma nova
filosofia, pronta a conquistar o mundo, portadora de conseqüências econômicas,
sociais e culturais revolucionárias.
Como efeito
disso começam a surgir os comportamentos virtuais. Comportamentos esses que já
não são da exclusiva esfera humana tal como a entendemos (um corpo habitado por
um espírito auto-consciente). Algoritmicamente dotadas de alguma liberdade de
acção, serei eu responsável pelo mau comportamento e eventuais danos causados –
na esfera virtual – pelas minhas extensões electrónicas, pelos meus clones? A
lei e a ética terão de responder a estas questões rapidamente.
Ouço ainda isto,
sou eu que penso, ou li algures?
Ainda um eco
rarefeito do perdido manifesto:
As imagens já
não fazem parte do mundo dos sonhos ou da imaginação: sonham-se a si mesmas;
tornam-se simulacro do que já era virtual; dão visibilidade a um mundo
invisível; isto é, tornaram, enfim, real a sua essência imaterial e a sua
natureza artificial. As velhas semiologias já não lhes servem, pois na vida
virtual, as imagens serão os factos reais da percepção e da experiência.
Esquematize-se:
imagens objectais
(factos)
>>>>> fautores
de percepções
imagens virtuais (imagens de síntese)
Por outras
palavras: as imagens artificiais, ou imagens sintéticas, não dependem
necessariamente de uma imagem mental prévia (como um desenho ou uma pintura)
nem de um referente material (como na fotografia). Proponha-se então
provisoriamente o seguinte parelelismo:
Objectos ® imagens mentais
® imagens materiais (ícones)
Imagens
sintéticas (virtuais) ® ícones ® imagens mentais
Há que inserir
os sinais artificiais na clássica seqüência semiótica: indícios, ícones, signos
verbais.
O real e o
virtual? Se um objecto coisal é um corpo material produtor de sensações,
um objecto virtual será um estado energético produtor das mesmas
sensações. Entre o real e o virtual, o efeito deverá ser o mesmo ou equivalente
– um complexo de sensações. A cisão entre o real e o virtual está sobretudo na
causa, na origem. Definindo “objecto” como fonte produtora de sensações, a
ruptura estabelece-se quando a fonte é um estado atómico ou um estado
energético, uma fonte de átomos ou de bits. A distinção entre imagem real
ou imagem virtual, melhor, a distinção entre objecto real e objecto
virtual parece radicar aí: no primeiro caso uma fonte material, atómica,
coisal, no segundo caso uma fonte energética, informacional, digital, das mesmas
sensações. Por isso nós, enquanto sujeitos, podemos construir a “mesma”
percepção (ou quase) ante uma fonte material ou uma fonte energética de
sensações: objecto material ou objecto virtual (um candeeiro, uma casa, um
planeta). O realismo de um objecto não está tanto na fonte produtora do
objecto, como no efeito perceptivo produzido. Muitas são as fontes que podem
levar a uma “percepção” (ou algo tomado como tal) – objecto, ilusão,
alucinação, sonho, imagem... Mundo
material e mundo virtual são, nesta perspectiva, diferentes estados produtores
de equivalentes sensações de realidade – fonte matérica ou fonte energética,
átomos ou bits.
A arte da
cibercultura e seus novos géneros emergentes foram já aflorados por Pierre Lévy
no conhecidíssimo livro «A Cibercultura». Também o texto típico do ciberespaço
apresenta características próprias que o desviam do paradigma gutemberguiano,
do texto linear clássico: em primeiro lugar a textura plurissígnica, depois a
estrutura hipertextual em rede e por fim a interactividade acolhendo nele a
imersão activa de um sujeito “navegador”. Daqui resulta a abertura das obras no
ciberespaço, a sua universalidade pela presença ubiquitária na rede (Levy), mas
sobretudo (e é o que mais nos interessa para o “texto generativo”) o seu carácter
processual (Bootz), dinâmico (Vuillemin), performativo (Balpe). A obra-fluxo,
em suma: “Os testemunhos artísticos da cibercultura são obras-fluxo,
obras-processo, mesmo obras-acontecimento que se prestam mal ao arquivo e à
conservação” (Levy, p.155). Das três tipologias textuais emergentes na
cibercultura – o hipertexto, o texto dinâmico, o texto generativo – é o texto
generativo (ou “texto virtual”, como também o costumamos denominar) aquele que
mais longe leva essa natureza potencial, virtual, embrionária, seminal,
cromossómica, que só como texto-fluxo pode e deve manifestar-se. Isto
implica uma noção de texto como estrutura geradora de sentidos (Barbosa, 1996),
uma espécie de “texto com motor” (Barbosa, 2000), que apenas se processa pela
sua manifestação dinâmica na actualização do(s) sentido(s); e daqui decorre a
sua bipartição estrutural em texto-matriz e textos-gerados
(adiante descritos), correspondentes ao seu estado potencial e actual num
horizonte de possíveis. Daí que todo o campo da comunicação textual surja
alterado. Como iremos ver.
O presente
artigo visa, com efeito, equacionar, teorizar e operacionalizar o cálculo
computacional na ciberarte, na ciberliteratura, no cibertexto.
Texto como
estrutura dinamizadora de sentidos na Literatura Gerada por Computador
Num tão extenso e tão
instável domínio tentarei ser o mais conciso possível.
Literatura Gerada por
Computador (LGC), Infoliteratura ou Ciberliteratura são termos que designam um
procedimento criativo novo, nascido com a tecnologia informática, em que o
computador é utilizado, de forma criativa, como manipulador de signos verbais e
não apenas como simples armazenador e transmissor de informação, que é o seu
uso corrente. Tal uso criativo do computador, extensível de forma geral à Arte
Assistida por Computador e à Ciberarte (composição musical, criação de imagens
sintéticas, cinema animado por computador, etc.), varia consoante as
potencialidades gerativas do algoritmo introduzido nos programas. Tais
programas assentam normalmente num algoritmo de base combinatória, aleatória,
estrutural, interactiva ou mista (combinando uma ou várias destas modalidades)
(Barbosa 1998).
No estado actual
em que se encontra, a LGC abrange três grandes linhas, géneros ou tendências de
criação textual, as quais muitas vezes podem assumir uma forma mista:
A aplicação
Sintext apresentada neste artigo enquadra-se no campo da Literatura Generativa,
funcionando como um instrumento potenciador da criação literária.
Na
Ciberliteratura o computador funciona como "máquina aberta", ou seja,
uma máquina em que a informação de entrada ou input é diferente da
informação de saída ou output (por oposição às "máquinas
fechadas", como é o caso de um gravador áudio ou vídeo, onde a informação
de entrada é igual à informação de saída). O computador no seu todo (hardware
mais software) equivale a uma "máquina semiótica" criadora de
informação nova, o que conduz a uma alteração profunda em todo o circuito
comunicacional da literatura no que concerne à criação, ao suporte e à
circulação da mensagem.
Um diagrama genérico poderá
esquematizar o processo criativo, onde o computador se intercala na relação autor-leitor:

O acto criativo cinde-se aqui sempre em dois
momentos: o da concepção (humana) e o da execução (maquinal), segundo Max
Bense; ou, segundo Abraham Moles, o da criação essencial ou ontológica
(realizada pelo artista) e o da criação secundária ou variacional (realizada
pela máquina). O artista concebe o modelo da obra a realizar (programa),
a máquina desenvolve e executa as múltiplas realizações concretas desse modelo
dentro de um campo de possíveis. O texto-matriz (pattern),
concebido pelo autor em estado latente ou potencial, abre-se sempre a um campo
de possíveis mais ou menos vasto, e tendencialmente infinito, que
constituirá o conjunto dos estados textuais actualizados ou concretos. Tal
campo de possíveis dará origem a um campo de leitura, o qual pode ser
explorado pelo próprio autor, que nele irá colher e seleccionar o(s) texto(s) a
apresentar ao leitor, mas pode também ser explorado directamente pelo próprio
leitor, dependendo isso de quem use no computador o programa criado. Daqui
decorrem duas modalidades de utilização:

A noção de texto computacional depende
obviamente do algoritmo utilizado para o criar e do método adoptado para o
percepcionar. Em todo o caso a noção de texto virtual poderá talvez
constituir a designação mais abrangente: "texto virtual" é um texto
em potência que contém o programa genético das obras a gerar; o computador
intervirá então aqui como um extensor de complexidade, capaz de dar execução à
multiplicidade infinita dos textos (e portanto dos sentidos) a gerar pelo
programa. O "texto virtual" é assim uma estrutura literária
associada a um motor informático que a põe a funcionar. E o autor
institui-se, por conseguinte, em "meta-autor" (Balpe).
O circuito da comunicação tradicional surge então aqui radicalmente alterado
nos seus múltiplos componentes: na relação autor/texto, na relação
texto/leitor, na relação autor/leitor, e na própria noção de Texto. Entramos no
domínio do Texto concebido como pura "máquina verbal": ou do texto
como estrutura geradora de sentidos.

Em qualquer dos casos o computador
funciona, seja como um amplificador de complexidade, seja como um actualizador
das capacidades textuais: quer dizer, sempre como uma prótese mental
prolongando o autor duma forma simbiótica.
Mas aquilo que do ponto de vista do autor pode surgir como "texto
virtual", do ponto de vista do leitor pode surgir como "texto de
leitura única" (Bootz), e no domínio do texto computorizado propriamente
dito pode ser descrito, pela sua dinâmica, como "texto em processo"
(Bootz) ou, pelo seu resultado, como "texto múltiplo" (Moles). A
introdução da interactividade no momento da recepção do texto em processo pode
conduzir a uma interversão simbiótica nas funções tradicionais do autor e do
leitor mediante uma maior ou menor participação deste último no resultado
textual final: entra-se num processo de escrita-pela-leitura ou de
leitura-pela-escrita que se pode denominar de "escrileitura", o que
implica um novo papel para o utente/leitor - "escrileitor",
"wreader" ou "laucteur".
No âmbito específico da Ciberliteratura (texto automático) convirá explicitar
ainda alguns conceitos.
1º) COMPUTADOR = manipulador de signos ou máquina
semiótica.
Por outras
palavras: o computador é encarado aqui como o manipulador de um conjunto de
sinais linguísticos (reportório) obedecendo a um conjunto de regras (gramática)
de acordo com um conjunto de instruções definidas pelo programa (algoritmo).
Sob este aspecto o computador apresenta-se como uma máquina, dita
"não-determinista", onde a informação de saída (output) é diferente
da informação de entrada (input): isto em oposição às máquinas ditas
"deterministas" - tal como um magnetofone - onde a mensagem aí
armazenada permanece sempre idêntica a ela mesma.
2º) LINGUAGEM: desde Lucrécio até Kristeva,
passando por escritores como J. L. Borges, a longa tradição atomista concebe a linguagem
como uma combinatória infinita de átomos linguísticos: letras, fonemas,
vocábulos, sintagmas, frases, etc. Desta formulação deriva a seguinte.
3º) OBRA ARTE: estrutura de signos recombinados de
maneira inovadora.
4º) CRIAÇÃO ASSISTIDA POR COMPUTADOR: tal como fez
Gianni Rodari na sua "Gramática da Fantasia", invocando a fórmula de
Nake, poder-se-ia propor aqui também um modelo a três elementos:

Ou seja: Criar (C) no computador equivale a fornecer um reportório finito de
Sinais (S), um número finito de Regras (R) para combinar esses sinais entre si,
e uma Intuição (I), simulada pelo algoritmo, que determine quais os sinais e
quais as regras que serão seleccionados de cada vez. O conjunto constitui o
trinómio que define o PROGRAMA ESTÉTICO. Assinale-se que o I pode mesmo
representar a intervenção do acaso como simulador da Imaginação: obtém-se então
um "binómio fantástico" onde S e R, por um lado, são a norma,
enquanto I é a liberdade ou o arbítrio criativo.
5º) PROGRAMA ESTÉTICO NA L.G.C.: a fórmula
anterior resume com efeito a criatividade artística por computador na sua
modalidade mais abstracta. O I da "imaginação", no domínio da
Literatura Gerada por Computador (LGC), engloba a componente do programa que
costumamos apelidar de "gerador" e que está na base do seu dinamismo:
em geral consiste num procedimento de tipo aleatório, combinatório ou
algorítmico. Na era do computador pessoal poderá mesmo acrescentar-se a
interactividade.
6º) CAMPO CRIATIVO: a criação do
modelo de obra continua a ser um trabalho de concepção humana (criação
ontológica ou essencial); a exploração do campo dos possíveis aberto por esse
modelo potencial é que será tarefa da máquina, a qual pode fazê-lo de um modo
infinitamente mais rápido e rigoroso do que nós (criação variacional em torno
de um modelo). O computador torna-se aqui um extensor da criatividade: ele
converte o infinito em finito (A. Moles).
7º) CAMPO DE LEITURA: um modelo de
texto dará assim lugar a uma infinidade de "múltiplos" todos
diferentes entre si, em lugar das habituais "cópias" sempre idênticas
ao modelo e a elas mesmas. Fica deste modo aberta a via para uma verdadeira
"arte variacional". No caso de a interactividade ser forte, o acto
habitualmente passivo da leitura transforma-se numa actividade participativa de
verdadeira "escrita-leitura" e o leitor assume o estatuto de
"escrileitor" (wreader, laucteur).
O programa informático interactivo, com opções abertas ao utente-leitor,
é que vai permitir a este, dentro de determinadas restrições (regras), elaborar
não só a sua "leitura" mas também a "construção" do texto a
visualizar no ecrã ou a fixar por escrito na impressora.
Sintext-Web: um
gerador de texto automático como instrumento computacional de
criação
literária
Com este
programa será possível, em princípio, gerar qualquer texto mais ou menos
complexo desde que para tal seja configurada a sua estrutura e fornecido o
material lexical. A razão está no facto de o programa do Sintext assentar na
junção dos dois eixos básicos que articulam a linguagem: o eixo sintagmático
(sequência parentetizada) e o eixo paradigmático (base lexical conjugada). Pelo
seu carácter potencial ou virtual, infinitamente renovável no seus estados
textuais, designaremos estes textos como textos generativos e esta
modalidade criativa como literatura algorítmica.
Apenas como exemplo da variabilidade
textual operacionalizável com o sintetizador de textos Sintext-W apresentam-se
aqui de imediato, e em paralelo, duas sequências da «Teoria do Homem Sentado»
(1996) que constituem precisamente dois inícios sucessivos dessa obra
algorítmica a funcionar em ciclo infinito...
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Versão de
demonstração
para ambiente
Web
manipulando
alguns extractos do
livro
electrónico:
«Teoria do
Homem Sentado»
de Pedro
Barbosa & Abílio Cavalheiro
publicado em
disquete para DOS
(Afrontamento, 1996)
série nº1
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Versão de
demonstração
para ambiente
Web
manipulando
alguns extractos do
livro
electrónico:
«Teoria do
Homem Sentado»
de Pedro
Barbosa & Abílio Cavalheiro
publicado em
disquete para DOS
(Afrontamento,
1996)
série nº 2
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Ths 1
Indecifrável Leitor:
Você é um autómato sentado, cada vez
mais sentado, diante da loucura.
Os livros todos cantam em coro a morte
térmica do universo, tem nuvens de electrões à volta do cabelo. O sofá
anestesia-lhe os fundilhos. Trata-se dum homem pós-moderno que assiste
sentado ao espectáculo do mundo: sempre envolto numa poalha de signos. É a hora
fatal do telejornal. Acomode-se pois no sofá, prezado leitor, feche melhor a
persiana: isole-se, como mandam as regras, das coisas reais que se agitam lá
fora. Veja o telejornal, pegue num livro, ligue o computador, foque sobre si
a câmara de vídeo se quiser entender até que ponto ainda existe. Não esqueça
a aparelhagem de som. Colija os seus textos esdrúxulos. Ligue o computador:
sobretudo isso. Abandone-se ao mundo virtual.
E tente ser feliz... Até já!
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Ths 2
Odiado Amigo:
Você é um esdrúxulo ser vivo
permanentemente sentado em frente de um monitor.
As persianas estão corridas sobre o
mundo, nuvens de electrões volteiam-lhe à roda da cabeça. A poltrona adormece-lhe
o traseiro. Eis o retrato do homem pós-moderno que assiste sentado ao
festival do nada: sempre envolto numa poalha de signos.
É a hora
sagrada do telejornal. Queira pois sentar-se, prezado leitor, feche todas as
janelas: isole-se, como mandam as regras, das coisas reais que gritam lá
fora. Ligue a televisão, pegue num livro, ligue-se à internet, aponte sobre
si a câmara de vídeo se quiser entender até que ponto está morto. Ponha um CD na aparelhagem de som. Digite estas
palavras convexas. Ligue o computador: sim, já foi
dito, mas não é demais repeti-lo. Abandone-se ao universo dos sinais.
E faça por ser feliz... Boa sorte!
|
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Oficio 1
OFíCIO
LÍRICO Nº 5177
(requerimento
oficial em modo de hipotexto)
S/ referência:
ofício cantante
Assunto:
inclinações luminosas
Senhor Administrador-Geral das Ideias
Perdidas e Achadas:
Neste ofício cantante venho expor a V.ª
Ex.ª o seguinte.
O acaso de um
circuito interminável oprime-me a vida de pacato e ordeiro cidadão deste país
do encoberto. Por isso me dirijo a V.ª Ex.ª no sentido de uma musical
intervenção no meu caso de saúde singular.
Além de que
vão intoxicar 40.000 drogados nos rios de Portugal, ouvi dizer.
Razão
subtraída: um cão uivando sobre a praia. E ainda porque toda a paisagem se
dissipa à velocidade da vidraça de um comboio parado na auto-estrada
dos passos desencontrados em direcção
ao cadastro emocional de V.ª Ex.ª. Acima de tudo, permito-me sublinhar
ainda a evidência de as políticas andarem todas trituradas na máquina de
travagem racional dos projectos afectivos.
Deixam-se em anexo fotocópias e
radiografias, autenticadas pelo notário,
comprovativas de tudo o que até agora lhe foi exposto.
Pede muy respeitosamente indeferimento,
o cidadão agarrado à transitoriedade da vida e abaixo assassinado.
Assinatura ilegível
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Oficio2
OFíCIO
LÍRICO Nº 2501
(requerimento
oficial em modo de hipotexto)
S/ referência: ofício de poetar
Assunto: amnésias rigorosas
Senhor Director-Geral das Almas Tristes:
Neste ofício irregulamentar venho expor
a V.ª Ex.ª o seguinte.
O vazio de um
soluço na faringe oprime-me a vida de pacato e desactivado cidadão deste país
carregado de sucata. Por isso venho apelar para V.ª Ex.ª no sentido de uma
rápida intervenção no meu caso de linguagem terminal sem qualquer pressa.
Além de que
vão envenenar 90.000 pombas nos monumentos
da Europa, ouvi dizer.
Argumentação
aduzida: um cavalo em decomposição ao sol sobre a areia. E ainda porque toda a paisagem é divisada à rapidez da janela de um comboio parado na via férrea
dos passos electrocutados em direcção
ao meu cadastro passional. E como quase não ia dizendo, atrevo-me a
sublinhar ainda a insofismável evidência de as ideias andarem todas a ser
turbilhonadas na máquina de travagem nacional dos resíduos
censurados.
Deixam-se aqui agrafadas fotocópias de
electroencefalogramas, registadas em cartório, indiciadoras de tudo o que até
agora lhe foi notariado.
Pede muy respeitosamente indeferimento
antecipado, o prisioneiro agarrado às grades da morte e abaixo assassinado.
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Porto 1
<PORTO>
(trovas
electrónicas)
A SAUDADE DO
GRANITO NA PEDRA DA HISTORIA
A SAUDADE DA
PEDRA NA HISTORIA DO GRANITO
DA SAUDADE DO
GRANITO A HISTORIA DA PEDRA
NO GRANITO DA
PEDRA DA SAUDADE DA HISTORIA
DA PEDRA A HISTORIA NA SAUDADE DO GRANITO
O GRANITO DA
HISTORIA NA PEDRA DA SAUDADE
NA PEDRA DO
GRANITO A SAUDADE DA HISTORIA
O GRANITO DA
HISTORIA NA SAUDADE DA PEDRA
O GRANITO DA
PEDRA NA HISTORIA DA SAUDADE
O GRANI |