Ó
Copyright Pedro Barbosa, 2001
O
computador como máquina semiótica
Pedro Barbosa
(com a colaboração de José
Manuel Torres)
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Os
dois trabalhos aqui reunidos num corpo único operacionalizam um conceito de
texto como “motor de sentidos” e propõem um uso do computador como “máquina
manipuladora de sinais”, ou seja como “máquina semiótica”. Um gerador
textual automático como o que a seguir se apresenta parte destes dois
conceitos de base: 1) uma noção de texto como “estrutura geradora de
sentidos”; 2) uma dinâmica de sentidos assente num algoritmo informático
capaz de explorar um campo de possíveis semióticos. Da junção destas duas
noções nasce o Sintetizador Textual «Sintext», aqui descrito na sua versão
para a Web, e bem assim a noção de texto virtual ou texto generativo,
concebido como “motor textual”, ou seja, como “texto em processo”
infinitamente renovável. Tudo isto no âmbito da Literatura Gerada por
Computador (LGC) ou, mais genericamente, no que já vem sendo designado como
“texto algorítmico”.
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Sumário
A Literatura
Gerada por Computador na sua vertente da "literatura generativa"
designa uma simbiose entre o computador e o autor no processo criativo, sendo a
máquina usada como um extensor automático de sentidos e não apenas como simples
armazenador e transmissor de informação.
A aplicação de
geração textual Sintext-Web, desenvolvida e descrita neste artigo,
representa, pela sua facilidade de utilização e acessibilidade através da
Internet, um instrumento potenciador da criatividade na ligação da Literatura à
Informática.
Abstract
Computer Generated Literature in its facet of
"generative literature" names a symbiosis between the computer and
the author during the creative process. In this case the machine acts as an
automatic extensor of the signs and not only as a simple information storage
and transmitter agent.
The text generation application Sintext-Web,
developed and described in this paper, represents, by its simplicity of use,
accessibility through the Internet, a tool capable of boosting the creativity
in the connection between Computer Science and Literature.
Projecto de “semiótica virtual”?
Faz tempo,
navegava na Internet e veio ter ao meu ecrã um quase manifesto contra a “velha
semiologia” e a favor de uma “semiótica virtual” (sic). Mas: semiótica virtual?
Entendamo-nos: talvez o redactor do artigo pretendesse dizer “semiótica do
virtual” ou “semiótica do mundo virtual”. Ou ainda, semiótica da cibercultura. Ah, web. web, web! Sempre tão volátil e tão virtual. O resultado
é hoje não me ser possível localizar de novo o referido texto nem poder citá-lo
com rigor.
Mas não há
dúvida de que estamos mergulhados num universo de sinais em que predomina o
estado virtual da maioria deles e que talvez a semiótica clássica não acolha da
melhor maneira no seu sistema de conceitos a categoria do virtual. Esta
realidade nova é particularmente flagrante no domínio das imagens. A grande
massa das imagens que recebemos já não provém do mundo das coisas ou do mundo
dos sonhos. E para o domínio da palavra algo de equivalente se está a passar:
este é o escopo do presente escrito. Nele se procura muito sinteticamente dar
conta de alguns aspectos comunicacionais novos que se colocam ao nível do texto
computacional quando a máquina labora em osmose semiótica com o ser humano:
aquilo que aqui se irá designar como texto automático, texto virtual
ou texto generativo.
Há que
incorporar no domínio dos sinais as novas angulações trazidas pela Inteligência
Artificial: uma intencionalidade diferida na comunicação humana, o grande magma
dos sinais digitais para onde tudo converge e de onde tudo diverge, sinais
virtuais lado a lado com sinais materiais, referencialidades originárias de
mundos de síntese, novos algoritmos de pensamento, percepção e sinalização.
Recordo ainda o
sentido apocalíptico com que se interrogava o autor do perdido manifesto: “Quem
seremos nesta nova esfera da existência, o mundo virtual?”
O ciberespaço
não é apenas uma nova tecnologia, mas uma nova forma de escrita e uma nova
filosofia, pronta a conquistar o mundo, portadora de conseqüências econômicas,
sociais e culturais revolucionárias.
Como efeito
disso começam a surgir os comportamentos virtuais. Comportamentos esses que já
não são da exclusiva esfera humana tal como a entendemos (um corpo habitado por
um espírito auto-consciente). Algoritmicamente dotadas de alguma liberdade de
acção, serei eu responsável pelo mau comportamento e eventuais danos causados –
na esfera virtual – pelas minhas extensões electrónicas, pelos meus clones? A
lei e a ética terão de responder a estas questões rapidamente.
Ouço ainda isto,
sou eu que penso, ou li algures?
Ainda um eco
rarefeito do perdido manifesto:
As imagens já
não fazem parte do mundo dos sonhos ou da imaginação: sonham-se a si mesmas;
tornam-se simulacro do que já era virtual; dão visibilidade a um mundo
invisível; isto é, tornaram, enfim, real a sua essência imaterial e a sua
natureza artificial. As velhas semiologias já não lhes servem, pois na vida
virtual, as imagens serão os factos reais da percepção e da experiência.
Esquematize-se:
imagens objectais
(factos)
>>>>> fautores
de percepções
imagens virtuais (imagens de síntese)
Por outras
palavras: as imagens artificiais, ou imagens sintéticas, não dependem
necessariamente de uma imagem mental prévia (como um desenho ou uma pintura)
nem de um referente material (como na fotografia). Proponha-se então
provisoriamente o seguinte parelelismo:
Objectos ® imagens mentais
® imagens materiais (ícones)
Imagens
sintéticas (virtuais) ® ícones ® imagens mentais
Há que inserir
os sinais artificiais na clássica seqüência semiótica: indícios, ícones, signos
verbais.
O real e o
virtual? Se um objecto coisal é um corpo material produtor de sensações,
um objecto virtual será um estado energético produtor das mesmas
sensações. Entre o real e o virtual, o efeito deverá ser o mesmo ou equivalente
– um complexo de sensações. A cisão entre o real e o virtual está sobretudo na
causa, na origem. Definindo “objecto” como fonte produtora de sensações, a
ruptura estabelece-se quando a fonte é um estado atómico ou um estado
energético, uma fonte de átomos ou de bits. A distinção entre imagem real
ou imagem virtual, melhor, a distinção entre objecto real e objecto
virtual parece radicar aí: no primeiro caso uma fonte material, atómica,
coisal, no segundo caso uma fonte energética, informacional, digital, das mesmas
sensações. Por isso nós, enquanto sujeitos, podemos construir a “mesma”
percepção (ou quase) ante uma fonte material ou uma fonte energética de
sensações: objecto material ou objecto virtual (um candeeiro, uma casa, um
planeta). O realismo de um objecto não está tanto na fonte produtora do
objecto, como no efeito perceptivo produzido. Muitas são as fontes que podem
levar a uma “percepção” (ou algo tomado como tal) – objecto, ilusão,
alucinação, sonho, imagem... Mundo
material e mundo virtual são, nesta perspectiva, diferentes estados produtores
de equivalentes sensações de realidade – fonte matérica ou fonte energética,
átomos ou bits.
A arte da
cibercultura e seus novos géneros emergentes foram já aflorados por Pierre Lévy
no conhecidíssimo livro «A Cibercultura». Também o texto típico do ciberespaço
apresenta características próprias que o desviam do paradigma gutemberguiano,
do texto linear clássico: em primeiro lugar a textura plurissígnica, depois a
estrutura hipertextual em rede e por fim a interactividade acolhendo nele a
imersão activa de um sujeito “navegador”. Daqui resulta a abertura das obras no
ciberespaço, a sua universalidade pela presença ubiquitária na rede (Levy), mas
sobretudo (e é o que mais nos interessa para o “texto generativo”) o seu carácter
processual (Bootz), dinâmico (Vuillemin), performativo (Balpe). A obra-fluxo,
em suma: “Os testemunhos artísticos da cibercultura são obras-fluxo,
obras-processo, mesmo obras-acontecimento que se prestam mal ao arquivo e à
conservação” (Levy, p.155). Das três tipologias textuais emergentes na
cibercultura – o hipertexto, o texto dinâmico, o texto generativo – é o texto
generativo (ou “texto virtual”, como também o costumamos denominar) aquele que
mais longe leva essa natureza potencial, virtual, embrionária, seminal,
cromossómica, que só como texto-fluxo pode e deve manifestar-se. Isto
implica uma noção de texto como estrutura geradora de sentidos (Barbosa, 1996),
uma espécie de “texto com motor” (Barbosa, 2000), que apenas se processa pela
sua manifestação dinâmica na actualização do(s) sentido(s); e daqui decorre a
sua bipartição estrutural em texto-matriz e textos-gerados
(adiante descritos), correspondentes ao seu estado potencial e actual num
horizonte de possíveis. Daí que todo o campo da comunicação textual surja
alterado. Como iremos ver.
O presente
artigo visa, com efeito, equacionar, teorizar e operacionalizar o cálculo
computacional na ciberarte, na ciberliteratura, no cibertexto.
Texto como
estrutura dinamizadora de sentidos na Literatura Gerada por Computador
Num tão extenso e tão
instável domínio tentarei ser o mais conciso possível.
Literatura Gerada por
Computador (LGC), Infoliteratura ou Ciberliteratura são termos que designam um
procedimento criativo novo, nascido com a tecnologia informática, em que o
computador é utilizado, de forma criativa, como manipulador de signos verbais e
não apenas como simples armazenador e transmissor de informação, que é o seu
uso corrente. Tal uso criativo do computador, extensível de forma geral à Arte
Assistida por Computador e à Ciberarte (composição musical, criação de imagens
sintéticas, cinema animado por computador, etc.), varia consoante as
potencialidades gerativas do algoritmo introduzido nos programas. Tais
programas assentam normalmente num algoritmo de base combinatória, aleatória,
estrutural, interactiva ou mista (combinando uma ou várias destas modalidades)
(Barbosa 1998).
No estado actual
em que se encontra, a LGC abrange três grandes linhas, géneros ou tendências de
criação textual, as quais muitas vezes podem assumir uma forma mista:
A aplicação
Sintext apresentada neste artigo enquadra-se no campo da Literatura Generativa,
funcionando como um instrumento potenciador da criação literária.
Na
Ciberliteratura o computador funciona como "máquina aberta", ou seja,
uma máquina em que a informação de entrada ou input é diferente da
informação de saída ou output (por oposição às "máquinas
fechadas", como é o caso de um gravador áudio ou vídeo, onde a informação
de entrada é igual à informação de saída). O computador no seu todo (hardware
mais software) equivale a uma "máquina semiótica" criadora de
informação nova, o que conduz a uma alteração profunda em todo o circuito
comunicacional da literatura no que concerne à criação, ao suporte e à
circulação da mensagem.
Um diagrama genérico poderá
esquematizar o processo criativo, onde o computador se intercala na relação autor-leitor:

O acto criativo cinde-se aqui sempre em dois
momentos: o da concepção (humana) e o da execução (maquinal), segundo Max
Bense; ou, segundo Abraham Moles, o da criação essencial ou ontológica
(realizada pelo artista) e o da criação secundária ou variacional (realizada
pela máquina). O artista concebe o modelo da obra a realizar (programa),
a máquina desenvolve e executa as múltiplas realizações concretas desse modelo
dentro de um campo de possíveis. O texto-matriz (pattern),
concebido pelo autor em estado latente ou potencial, abre-se sempre a um campo
de possíveis mais ou menos vasto, e tendencialmente infinito, que
constituirá o conjunto dos estados textuais actualizados ou concretos. Tal
campo de possíveis dará origem a um campo de leitura, o qual pode ser
explorado pelo próprio autor, que nele irá colher e seleccionar o(s) texto(s) a
apresentar ao leitor, mas pode também ser explorado directamente pelo próprio
leitor, dependendo isso de quem use no computador o programa criado. Daqui
decorrem duas modalidades de utilização:

A noção de texto computacional depende
obviamente do algoritmo utilizado para o criar e do método adoptado para o
percepcionar. Em todo o caso a noção de texto virtual poderá talvez
constituir a designação mais abrangente: "texto virtual" é um texto
em potência que contém o programa genético das obras a gerar; o computador
intervirá então aqui como um extensor de complexidade, capaz de dar execução à
multiplicidade infinita dos textos (e portanto dos sentidos) a gerar pelo
programa. O "texto virtual" é assim uma estrutura literária
associada a um motor informático que a põe a funcionar. E o autor
institui-se, por conseguinte, em "meta-autor" (Balpe).
O circuito da comunicação tradicional surge então aqui radicalmente alterado
nos seus múltiplos componentes: na relação autor/texto, na relação
texto/leitor, na relação autor/leitor, e na própria noção de Texto. Entramos no
domínio do Texto concebido como pura "máquina verbal": ou do texto
como estrutura geradora de sentidos.

Em qualquer dos casos o computador
funciona, seja como um amplificador de complexidade, seja como um actualizador
das capacidades textuais: quer dizer, sempre como uma prótese mental
prolongando o autor duma forma simbiótica.
Mas aquilo que do ponto de vista do autor pode surgir como "texto
virtual", do ponto de vista do leitor pode surgir como "texto de
leitura única" (Bootz), e no domínio do texto computorizado propriamente
dito pode ser descrito, pela sua dinâmica, como "texto em processo"
(Bootz) ou, pelo seu resultado, como "texto múltiplo" (Moles). A
introdução da interactividade no momento da recepção do texto em processo pode
conduzir a uma interversão simbiótica nas funções tradicionais do autor e do
leitor mediante uma maior ou menor participação deste último no resultado
textual final: entra-se num processo de escrita-pela-leitura ou de
leitura-pela-escrita que se pode denominar de "escrileitura", o que
implica um novo papel para o utente/leitor - "escrileitor",
"wreader" ou "laucteur".
No âmbito específico da Ciberliteratura (texto automático) convirá explicitar
ainda alguns conceitos.
1º) COMPUTADOR = manipulador de signos ou máquina
semiótica.
Por outras
palavras: o computador é encarado aqui como o manipulador de um conjunto de
sinais linguísticos (reportório) obedecendo a um conjunto de regras (gramática)
de acordo com um conjunto de instruções definidas pelo programa (algoritmo).
Sob este aspecto o computador apresenta-se como uma máquina, dita
"não-determinista", onde a informação de saída (output) é diferente
da informação de entrada (input): isto em oposição às máquinas ditas
"deterministas" - tal como um magnetofone - onde a mensagem aí
armazenada permanece sempre idêntica a ela mesma.
2º) LINGUAGEM: desde Lucrécio até Kristeva,
passando por escritores como J. L. Borges, a longa tradição atomista concebe a linguagem
como uma combinatória infinita de átomos linguísticos: letras, fonemas,
vocábulos, sintagmas, frases, etc. Desta formulação deriva a seguinte.
3º) OBRA ARTE: estrutura de signos recombinados de
maneira inovadora.
4º) CRIAÇÃO ASSISTIDA POR COMPUTADOR: tal como fez
Gianni Rodari na sua "Gramática da Fantasia", invocando a fórmula de
Nake, poder-se-ia propor aqui também um modelo a três elementos:

Ou seja: Criar (C) no computador equivale a fornecer um reportório finito de
Sinais (S), um número finito de Regras (R) para combinar esses sinais entre si,
e uma Intuição (I), simulada pelo algoritmo, que determine quais os sinais e
quais as regras que serão seleccionados de cada vez. O conjunto constitui o
trinómio que define o PROGRAMA ESTÉTICO. Assinale-se que o I pode mesmo
representar a intervenção do acaso como simulador da Imaginação: obtém-se então
um "binómio fantástico" onde S e R, por um lado, são a norma,
enquanto I é a liberdade ou o arbítrio criativo.
5º) PROGRAMA ESTÉTICO NA L.G.C.: a fórmula
anterior resume com efeito a criatividade artística por computador na sua
modalidade mais abstracta. O I da "imaginação", no domínio da
Literatura Gerada por Computador (LGC), engloba a componente do programa que
costumamos apelidar de "gerador" e que está na base do seu dinamismo:
em geral consiste num procedimento de tipo aleatório, combinatório ou
algorítmico. Na era do computador pessoal poderá mesmo acrescentar-se a
interactividade.
6º) CAMPO CRIATIVO: a criação do
modelo de obra continua a ser um trabalho de concepção humana (criação
ontológica ou essencial); a exploração do campo dos possíveis aberto por esse
modelo potencial é que será tarefa da máquina, a qual pode fazê-lo de um modo
infinitamente mais rápido e rigoroso do que nós (criação variacional em torno
de um modelo). O computador torna-se aqui um extensor da criatividade: ele
converte o infinito em finito (A. Moles).
7º) CAMPO DE LEITURA: um modelo de
texto dará assim lugar a uma infinidade de "múltiplos" todos
diferentes entre si, em lugar das habituais "cópias" sempre idênticas
ao modelo e a elas mesmas. Fica deste modo aberta a via para uma verdadeira
"arte variacional". No caso de a interactividade ser forte, o acto
habitualmente passivo da leitura transforma-se numa actividade participativa de
verdadeira "escrita-leitura" e o leitor assume o estatuto de
"escrileitor" (wreader, laucteur).
O programa informático interactivo, com opções abertas ao utente-leitor,
é que vai permitir a este, dentro de determinadas restrições (regras), elaborar
não só a sua "leitura" mas também a "construção" do texto a
visualizar no ecrã ou a fixar por escrito na impressora.
Sintext-Web: um
gerador de texto automático como instrumento computacional de
criação
literária
Com este
programa será possível, em princípio, gerar qualquer texto mais ou menos
complexo desde que para tal seja configurada a sua estrutura e fornecido o
material lexical. A razão está no facto de o programa do Sintext assentar na
junção dos dois eixos básicos que articulam a linguagem: o eixo sintagmático
(sequência parentetizada) e o eixo paradigmático (base lexical conjugada). Pelo
seu carácter potencial ou virtual, infinitamente renovável no seus estados
textuais, designaremos estes textos como textos generativos e esta
modalidade criativa como literatura algorítmica.
Apenas como exemplo da variabilidade
textual operacionalizável com o sintetizador de textos Sintext-W apresentam-se
aqui de imediato, e em paralelo, duas sequências da «Teoria do Homem Sentado»
(1996) que constituem precisamente dois inícios sucessivos dessa obra
algorítmica a funcionar em ciclo infinito...
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Versão de
demonstração
para ambiente
Web
manipulando
alguns extractos do
livro
electrónico:
«Teoria do
Homem Sentado»
de Pedro
Barbosa & Abílio Cavalheiro
publicado em
disquete para DOS
(Afrontamento, 1996)
série nº1
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Versão de
demonstração
para ambiente
Web
manipulando
alguns extractos do
livro
electrónico:
«Teoria do
Homem Sentado»
de Pedro
Barbosa & Abílio Cavalheiro
publicado em
disquete para DOS
(Afrontamento,
1996)
série nº 2
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Ths 1
Indecifrável Leitor:
Você é um autómato sentado, cada vez
mais sentado, diante da loucura.
Os livros todos cantam em coro a morte
térmica do universo, tem nuvens de electrões à volta do cabelo. O sofá
anestesia-lhe os fundilhos. Trata-se dum homem pós-moderno que assiste
sentado ao espectáculo do mundo: sempre envolto numa poalha de signos. É a hora
fatal do telejornal. Acomode-se pois no sofá, prezado leitor, feche melhor a
persiana: isole-se, como mandam as regras, das coisas reais que se agitam lá
fora. Veja o telejornal, pegue num livro, ligue o computador, foque sobre si
a câmara de vídeo se quiser entender até que ponto ainda existe. Não esqueça
a aparelhagem de som. Colija os seus textos esdrúxulos. Ligue o computador:
sobretudo isso. Abandone-se ao mundo virtual.
E tente ser feliz... Até já!
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Ths 2
Odiado Amigo:
Você é um esdrúxulo ser vivo
permanentemente sentado em frente de um monitor.
As persianas estão corridas sobre o
mundo, nuvens de electrões volteiam-lhe à roda da cabeça. A poltrona adormece-lhe
o traseiro. Eis o retrato do homem pós-moderno que assiste sentado ao
festival do nada: sempre envolto numa poalha de signos.
É a hora
sagrada do telejornal. Queira pois sentar-se, prezado leitor, feche todas as
janelas: isole-se, como mandam as regras, das coisas reais que gritam lá
fora. Ligue a televisão, pegue num livro, ligue-se à internet, aponte sobre
si a câmara de vídeo se quiser entender até que ponto está morto. Ponha um CD na aparelhagem de som. Digite estas
palavras convexas. Ligue o computador: sim, já foi
dito, mas não é demais repeti-lo. Abandone-se ao universo dos sinais.
E faça por ser feliz... Boa sorte!
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Oficio 1
OFíCIO
LÍRICO Nº 5177
(requerimento
oficial em modo de hipotexto)
S/ referência:
ofício cantante
Assunto:
inclinações luminosas
Senhor Administrador-Geral das Ideias
Perdidas e Achadas:
Neste ofício cantante venho expor a V.ª
Ex.ª o seguinte.
O acaso de um
circuito interminável oprime-me a vida de pacato e ordeiro cidadão deste país
do encoberto. Por isso me dirijo a V.ª Ex.ª no sentido de uma musical
intervenção no meu caso de saúde singular.
Além de que
vão intoxicar 40.000 drogados nos rios de Portugal, ouvi dizer.
Razão
subtraída: um cão uivando sobre a praia. E ainda porque toda a paisagem se
dissipa à velocidade da vidraça de um comboio parado na auto-estrada
dos passos desencontrados em direcção
ao cadastro emocional de V.ª Ex.ª. Acima de tudo, permito-me sublinhar
ainda a evidência de as políticas andarem todas trituradas na máquina de
travagem racional dos projectos afectivos.
Deixam-se em anexo fotocópias e
radiografias, autenticadas pelo notário,
comprovativas de tudo o que até agora lhe foi exposto.
Pede muy respeitosamente indeferimento,
o cidadão agarrado à transitoriedade da vida e abaixo assassinado.
Assinatura ilegível
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Oficio2
OFíCIO
LÍRICO Nº 2501
(requerimento
oficial em modo de hipotexto)
S/ referência: ofício de poetar
Assunto: amnésias rigorosas
Senhor Director-Geral das Almas Tristes:
Neste ofício irregulamentar venho expor
a V.ª Ex.ª o seguinte.
O vazio de um
soluço na faringe oprime-me a vida de pacato e desactivado cidadão deste país
carregado de sucata. Por isso venho apelar para V.ª Ex.ª no sentido de uma
rápida intervenção no meu caso de linguagem terminal sem qualquer pressa.
Além de que
vão envenenar 90.000 pombas nos monumentos
da Europa, ouvi dizer.
Argumentação
aduzida: um cavalo em decomposição ao sol sobre a areia. E ainda porque toda a paisagem é divisada à rapidez da janela de um comboio parado na via férrea
dos passos electrocutados em direcção
ao meu cadastro passional. E como quase não ia dizendo, atrevo-me a
sublinhar ainda a insofismável evidência de as ideias andarem todas a ser
turbilhonadas na máquina de travagem nacional dos resíduos
censurados.
Deixam-se aqui agrafadas fotocópias de
electroencefalogramas, registadas em cartório, indiciadoras de tudo o que até
agora lhe foi notariado.
Pede muy respeitosamente indeferimento
antecipado, o prisioneiro agarrado às grades da morte e abaixo assassinado.
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Porto 1
<PORTO>
(trovas
electrónicas)
A SAUDADE DO
GRANITO NA PEDRA DA HISTORIA
A SAUDADE DA
PEDRA NA HISTORIA DO GRANITO
DA SAUDADE DO
GRANITO A HISTORIA DA PEDRA
NO GRANITO DA
PEDRA DA SAUDADE DA HISTORIA
DA PEDRA A HISTORIA NA SAUDADE DO GRANITO
O GRANITO DA
HISTORIA NA PEDRA DA SAUDADE
NA PEDRA DO
GRANITO A SAUDADE DA HISTORIA
O GRANITO DA
HISTORIA NA SAUDADE DA PEDRA
O GRANITO DA
PEDRA NA HISTORIA DA SAUDADE
O GRANITO NA
HISTORIA DA PEDRA DA SAUDADE
DA PEDRA O GRANITO DA SAUDADE NA HISTORIA
O GRANITO DA
SAUDADE NA PEDRA DA HISTORIA
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Aveiro 2
<AVEIRO>
(elegia
minimal repetitiva)
NA RIA
DA TRISTEZA UMA ALEGRIA SEM
AGUA
DA TRISTEZA
NA RIA SEM
AGUA UMA ALEGRIA
DA TRISTEZA
SEM RIA UMA ALEGRIA NA
AGUA
NA RIA UMA AGUA SEM TRISTEZA DA
ALEGRIA
NA TRISTEZA
SEM RIA UMA ALEGRIA DA
AGUA
NA AGUA
SEM RIA UMA ALEGRIA DA
TRISTEZA
SEM RIA UMA TRISTEZA NA ALEGRIA DA
AGUA
UMA
ALEGRIA NA RIA SEM AGUA
DA TRISTEZA
DA AGUA UMA ALEGRIA SEM RIA NA
TRISTEZA
SEM AGUA UMA ALEGRIA NA TRISTEZA DA
RIA
NA RIA
SEM TRISTEZA UMA
ALEGRIA DA AGUA
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<AFORISMOS>
(gerador
automático de aforismos)
- cala , saberás ouvir.
- vive , saberás calar.
- cala , saberás aprender.
- responde , saberás ensinar.
- quem bem vive, bem cala .
- quem bem fala , bem esquece .
- quem bem morre , bem cala .
- responde , saberás ouvir.
- quem bem cala , bem pergunta .
- cala , saberás amar.
- vive , saberás aprender.
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Afor2
<AFORISMOS>
(gerador
automático de aforismos)
- quem bem vive , bem morre .
- vive , saberás morrer.
- lê , saberás calar.
- quem bem come, bem arrota.
- quem bem pergunta , bem responde .
- ouve, saberás morrer.
- cozinha , saberás comer.
- aprende, saberás ouvir.
- quem bem ensina , bem responde .
- responde , saberás perguntar.
- cala , saberás falar.
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D1
<DIDÁCTICA>
(variações
electrónicas)
Douto é o
professor que ensina com a paixão de interrogar.
Para perguntas
cansadas, respostas de joelhos.
Quem faz
perguntas convexas, recebe respostas de viés .
Para respostas
obscenas, perguntas oblíquas.
Quem faz
perguntas deitadas, recebe respostas de pé.
Grande é a
sapiência do professor que ensina o que não se pode aprender.
Quem faz
perguntas iracundas, recebe respostas de joelhos.
Douto é o
professor que ensina com a paixão de aprender.
Grande é o
saber do professor que ensina o que não se pode ensinar.
Douto é o mestre
que ensina pelo prazer de interrogar.
Para respostas
exaustas, perguntas assobiadas.
Grande é a
sapiência do mestre que aprende o que não se pode ensinar.
Grande é o
saber do professor que ensina o que não se pode aprender.
O professor
faz perguntas cansadas , o aluno remói respostas distraídas.
Para perguntas de caras, respostas inclinadas.
Quem faz
perguntas erráticas, recebe respostas a boiar.
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L2
<LITANIAS>
(lengalenga
electrónica)
NA FORÇA DO
SILÊNCIO CRESCE A PALAVRA DA VERDADE
NA FORÇA DO MEDO CRESCE O SILÊNCIO DA
PALAVRA
NA PALAVRA DA FORÇA CRESCE O SILÊNCIO DA
VERDADE
NA FORÇA DO SILÊNCIO CRESCE O MEDO DA
VERDADE
NO MEDO DA VERDADE CRESCE A PALAVRA DA
FORÇA
DA FORÇA NO MEDO CRESCE A PALAVRA DO
SILÊNCIO
DA FORÇA DO SILÊNCIO CRESCE O MEDO NA
PALAVRA
MORRE NO
CANSAÇO DA VERDADE O SILÊNCIO DA FORÇA
NASCE DA VERDADE NA PALAVRA O MEDO DO
SILÊNCIO
MORRE DO CANSAÇO NO SILÊNCIO A VERDADE DO
MEDO
MORRE NO MEDO DO SILÊNCIO O CANSAÇO DA
VERDADE
NASCE DA PALAVRA NA FORÇA O SILÊNCIO DA
VERDADE
NASCE DO SILÊNCIO DA FORÇA O CANSAÇO DA VERDADE
NASCE NO CANSAÇO DA FORÇA O MEDO DA
VERDADE
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Como resultado
de um trabalho de investigação e criação levado a cabo desde 1999 no Centro de
Estudos sobre Texto Informático e Ciberliteratura (Cetic), encontra-se
disponível no domínio Web deste Centro uma versão em Java do anterior
Sintetizador Textual Automático "Sintext" para DOS (Ó Cavalheiro e Barbosa, 1993).
Nesta nova
versão, desenvolvida de raiz por José Manuel Torres, será ainda possível
accionar, nomeadamente em ciclo infinito, os textos generativos aí incluídos.
A actual versão do
Sintext foi desenvolvida para utilização de toda a comunidade da Internet,
tendo em conta vários requisitos iniciais. Nomeadamente:
·
Facilidade de
utilização: o facto deste instrumento se destinar a ser maioritariamente usado
por pessoas ligadas ao campo literário e que portanto vêm a informática na
óptica do utilizador, torna fundamental a condição de este ser de uso simples;
·
Ilustrar as
potencialidades de uma aplicação deste género: este requisito conduziu à
introdução de três textos generativos com o intuito de introduzir e mostrar
algumas das potencialidades do Sintext;
·
Alcance: este
requisito é satisfeito pelo facto de o Sintext estar disponível na Web. Isto
implica virtualmente a sua disponibilização a toda a comunidade de utilizadores
da Internet;
·
Potência de
utilização: dar a possibilidade de o utilizador criar os seus próprios textos e
por conseguinte usar imediatamente e a qualquer altura o Sintext como
potenciador literário, em toda a sua plenitude, da criatividade artística;
·
Possibilidade de
utilização em associação com um vulgar processador de texto: processador de
texto no qual o autor ou o utilizador poderá preparar o texto-matriz (com o seu
léxico e as suas regras) e re-trabalhar depois à sua vontade a totalidade do(s)
texto(s) gerado(s) pelo Sintext.
A aplicação Java
Sintext-Web é carregada quando o browser carrega a página de html respectiva
(Grahan 1997; Coelho 1996a).
Na parte
superior da página que contém o Sintext, está um pequeno texto de ajuda que o
utilizador deverá ler antes de se iniciar com o Sintext. Incluído neste texto
vem um pequeno exemplo de texto matriz que não tem como objectivo demonstrar as
potencialidades do Sintext mas apenas introduzir o utilizador a alguma da sintaxe
usada por este programa.
A aplicação
Sintext encontra-se na parte inferior da página e pode ser vista na Figura 1.

Figura 1 - Janela da
aplicação Sintext-Web
É constituída por duas caixas de texto: a caixa de texto onde se encontra
localizado o texto matriz preparado pelo utilizador e a caixa de texto para
onde irá ser enviado o texto gerado pelo Sintext.
A primeira caixa de texto irá funcionar como entrada
para o sintetizador de textos, enquanto a segunda caixa de texto irá funcionar
como saída (texto produzido pelo Sintext com base no texto matriz).
A aplicação Sintext foi desenvolvida usando a linguagem de programação
Java. Esta linguagem, dadas as suas características de independência quer de
sistema operativo, quer de plataforma de hardware, adequa-se bem ao ambiente
Internet. A aplicação foi desenvolvida como applet, isto é, a aplicação
Sintext é executada tendo como suporte um Browser e carregada embutida numa
página html.
Assim, os requisitos necessários para o utilizador poder executar a
aplicação Sintext-Web são:
·
Possuir um browser que seja capaz de executar
programas escritos em Java (qualquer das últimas versões dos navegadores da
Netscape e da Microsoft são capazes de tal);
·
Ter uma ligação à Internet de modo a que seja
possível a ligação à página do Sintext-Web para o carregar no browser
utilizado.
Deverá ter-se em conta que cada texto generativo carece de ser pensado
como um conjunto de CONSTANTES (que o Sintext identifica colocando qualquer
"sintagma" simplesmente entre aspas) e um conjunto de VARIÁVEIS (que
o Sintext identifica mediante a introdução de parênteses ["rectos"]
abrangidos por novos parênteses [rectos] contendo de cada lado uma etiqueta
simbólica indicadora da categoria gramatical pretendida).
Se as Constantes poderão assegurar a continuidade do eixo sintagmático,
as Variáveis constituem o léxico a introduzir variacionalmente pelo programa
segundo o eixo paradigmático: e assim se reconstituem os dois eixos basilares
em que se articula a linguagem.
O texto matriz serve de base ao motor de geração de textos do Sintext para
este conseguir gerar o texto final. O texto matriz é construído com base na
filosofia usada nas linguagens de marcação (markup
languages), isto é, existem elementos marcadores, também designados por
etiquetas, e existe o restante texto.
As etiquetas são assinaladas usando dois símbolos ‘[‘ a delimitar o
identificador que marca o início duma instância desse tipo de etiqueta e dois
símbolos ‘]‘ a delimitar o identificador que marca o fim da mesma instância
como se pode ver na Figura 4. O texto que está incluso em cada instância de uma
etiqueta é sempre delimitado com os símbolos ‘"’.
Figura 2 – Exemplo de
texto matriz
Todas as etiquetas estão emparelhadas, logo quando surge uma etiqueta de
início tem também obrigatoriamente de haver uma etiqueta de fim. Esta regra só
é quebrada para as etiquetas instrução [tira-[ e [repoe-[ que têm uma função
especial explicada mais à frente neste artigo.
Os comentários no texto matriz são colocados entre chavetas ‘{comentário}’. O motor de geração de
textos irá ignorar todo o texto que seja comentário.
Na aplicação Sintext apresentada são disponibilizados três textos
generativos:
·
«Teoria do Homem Sentado»;
·
«Balada de Portugal»;
·
«Didáctica».
O utilizador pode visualizar o texto matriz de cada um desses exemplos
bastando para tal clicar nos botões respectivos que se encontram imediatamente
por baixo da janela de visionamento do texto matriz. Nesse caso, o texto matriz
do exemplo seleccionado irá ser visualizado na referida janela (ou caixa de
texto).
No caso de o utilizador querer experimentar a geração de texto a partir
de um dos três exemplos, pode accionar directamente esse processo, bastando
para tal clicar num dos três botões de geração de texto Gerar: «Teoria do Homem Sentado», Gerar: «Balada de Portugal» ou Gerar
exemplo: «Didáctica», que se encontram por baixo da janela do texto gerado
a partir do Sintext. O quarto botão de geração de texto, Gerar texto do utilizador, que se encontra mais à direita, permite
gerar o texto a partir do texto-matriz que se encontra na janela de
visionamento do texto matriz e que pode ser construído pelo próprio utilizador.
O utilizador pode também em qualquer altura apagar todo o conteúdo da
janela de visionamento do texto matriz bastando para tal clicar no botão: Limpar janela de visionamento.
O processo de criação do texto matriz pode constituir uma tarefa mais ou
menos demorada consoante a complexidade do texto concebido. Na verdade, durante
a fase de criação de um dado texto matriz, o utilizador poderá por vezes
recorrer a outros textos matriciais já criados. Esta metodologia, obriga a que
o utilizador organize um repositório de textos-matriz e que use uma aplicação
de edição de texto (Microsoft Notepad ou
Microsoft Word) para alterar ou criar
textos matriciais. É possível compatibilizar o uso de uma aplicação de
processamento de texto com o Sintext através das operações para “copiar” e
“colar” texto (dentro do ambiente de trabalho Microsoft Windows). Assim, um utilizador que esteja a trabalhar no
seu texto matriz num editor de texto e a dada altura queira passar o texto para
a 1ª janela de visionamento do Sintext de modo a gerar o texto, poderá executar
a seguinte sequência de acções:
1. Seleccionar todo o texto matriz no
processador de texto;
2. Copiar o texto no processador de
texto (Ctrl+C);
3. Mudar para a janela de visionamento
do texto matriz do Sintext e colocar o cursor de texto activo nessa 1ª janela;
4. Colar o texto-matriz na 1ª janela de
visionamento do Sintext (Ctrl+V).
Desse modo, o texto matriz preparado pelo utilizador estará apto a ser
gerado no Sintext.
Como se pode ver na Figura 3, para que o Sintext proceda à geração de
textos tem de usar como base um texto matriz que pode ser criado pelo
utilizador ou pode ser um dos três textos generativos disponibilizados. Como
saída, o Sintext irá gerar o texto a partir do texto matriz de entrada.

Figura 3 - Esquema de
funcionamento do Sintext-Web
Note-se que um aspecto importante a considerar é também a possibilidade
de se utilizar esta ferramenta criativa em associação com um vulgar processador
de texto no sentido inverso. Para tal, uma vez concluído o texto gerado
automaticamente, o utilizador poderá copiá-lo na íntegra para o processador de
texto a fim de o re-trabalhar à sua vontade. Deverá nesse caso, executar os
seguintes passos:
1. Seleccionar todo o texto gerado na
segunda janela do Sintext depois de ter posicionado o cursor no seu início
(Shift+Ctrl+End);
2. Copiar o texto gerado (Ctrl+C);
3. Mudar para o processador de texto;
4. Colar o texto gerado para o ficheiro
aberto no processador de texto (Ctrl+V).
Desse modo, o texto gerado poderá ser re-trabalhado à vontade do
utilizador.
O processo de geração de texto vai obedecer a várias etapas conforme se
pode ver na Figura 2.

Figura 4 – Sequência de
passos para geração de um texto a partir do texto matriz
A primeira fase desse processo vai ser dedicada à análise do texto
matriz. Na fase de análise, o programa vai verificar se o texto de entrada
respeita a estrutura e regras de um texto matriz e vai extrair todas as
instâncias de etiquetas existentes no texto matriz de modo a criar a base
lexical de cada etiqueta que será usada na operação de selecção aleatória.
A segunda fase será dedicada à geração do texto e terá como entrada a
base lexical de etiquetas armazenada internamente no programa e obtida como
resultado do primeiro processo. Neste processo, o Sintext reconhece e usa as
instruções especiais de repoe, tira e ciclo
descritas à frente neste texto. Como resultado deste processo, irá ser
construído o texto gerado.
Na última fase em que o texto já foi gerado, procede-se à visualização
desse mesmo texto de um modo gradual na 2ª janela de texto gerado pelo Sintext.
Durante o processo de geração do texto, este vai aparecendo gradualmente,
letra a letra, na janela do texto gerado a partir do Sintext. Durante este
processo de visualização do texto, o utilizador pode controlar a velocidade com
que o texto gerado vai aparecendo. Esse controlo pode ser efectuado através do
botão + Velocidade para aumentar a
cadência a que as letras do texto gerado vão sendo visualizadas ou do botão - Velocidade para obter o efeito
contrário.
O utilizador tem ainda a possibilidade de executar o processo de geração
em ciclo infinito, bastando para tal clicar sobre a caixa de verificação que se
encontra ao lado do texto Executar em
Ciclo Infinito. Esta opção faz com que após a geração do texto a partir do
texto matriz, o processo de geração seja reinicializado como uma nova iteração
do ciclo. Enquanto esta opção estiver activa o processo de geração vai sendo
sempre executado em ciclo, nunca tendo fim. O texto gerado ir-se-á acumulando
na janela de texto gerado a partir do Sintext.
Em qualquer altura da geração de texto o utilizador pode suspender esse
processo clicando no botão Parar Geração
de Texto, que naturalmente só está activo quando o texto está a ser gerado.
A instrução ciclo, permite que o utilizador leve o Sintext a executar uma
operação de selecção aleatória de uma etiqueta ou conjunto de etiquetas mais do
que uma vez. Com recurso a esta instrução, o utilizador pode controlar o número
de vezes que deseja que o Sintext execute uma operação de selecção de uma
sequência de uma ou mais etiquetas.
Uma instrução ciclo começa sempre pelo identificador ciclo, seguido pela
identificação da etiqueta, que tem de ser única e é composta por três símbolos
alfanuméricos, pelo identificador x e pelo número de vezes que o ciclo será
executado.
Em baixo, tem-se um exemplo de um texto matriz que usa duas instruções
ciclo, a instrução ciclo000x02 e a instrução ciclo001x07.
A instrução ciclo000x02 tem como identificador único a sequência 000 e
vai ser executada 2 vezes (x02). A instrução ciclo001x07 tem como identificador
único a sequência 001 e vai ser executada 7 vezes (x07).
[texto[
[ciclo000x02[ {inicio do
ciclo 000 que é executado 2 vezes}
[morf[" "]morf] [lexema["A SAUDADE
"]lexema]
[morf["D"]morf] [lexema["A PEDRA
"]lexema]
]ciclo000x02] {fim do ciclo
000}
[ciclo001x07[ {inicio do ciclo
001 que é executado 7 vezes}
[morf1[" "]morf1] [lexema1["O GRANITO
"]lexema1]
[morf1["D"]morf1] [lexema1["A HISTORIA
"]lexema1]
]ciclo001x07] {fim do ciclo
001}
]texto]
É possível embutir um ciclo noutro ciclo:
[ciclo000x02[ {inicio do
ciclo exterior 000}
[ciclo001x07[ {inicio
do ciclo interior 001}
[morf["
"]morf] [lexema["A SAUDADE "]lexema]
[morf["D"]morf]
[lexema["A PEDRA "]lexema]
]ciclo001x07] {fim
do ciclo interior 001}
]ciclo000x02] {fim do ciclo
exterior 000}
Mas não é possível fechar um ciclo exterior antes do
fecho de todos os ciclos interiores como é ilustrado pelo exemplo seguinte:
[ciclo000x02[ {inicio do
ciclo 000}
[ciclo001x07[ {inicio
do ciclo 001}
[morf["
"]morf] [lexema["A SAUDADE "]lexema]
[morf["D"]morf]
[lexema["A PEDRA "]lexema]
]ciclo000x02] {fim
do ciclo 000 antes do fim do ciclo 001}
]ciclo001x07] {fim do ciclo
001 após o fecho do ciclo 000}
Quando o Sintext está a proceder a uma operação de escolha aleatória de
uma dada etiqueta, tem ao seu dispor uma base lexical para a selecção aleatória
constituída por todas as instâncias (ou ocorrências) dessa mesma etiqueta
definidas pelo utilizador no seu texto-matriz. No entanto, por vezes o utilizador
pode estar interessado em que não haja repetição da mesma instância de etiqueta
numa dada sequência de operações de selecção aleatória.
O Sintext garante esta característica com recurso à etiqueta especial tira
que a seguir se irá designar por instrução tira por questão de
clareza. Uma instrução tira começa sempre pelo identificador tira-,
seguido pela identificação da etiqueta a retirar que tem de existir
obrigatoriamente no texto matriz. Quando o Sintext está a processar o texto
matriz e a dada altura selecciona uma etiqueta, ele vai armazenar sempre qual
foi a última instância seleccionada de cada uma das etiquetas existentes.
Quando surge uma instrução tira, o Sintext irá retirar da base lexical para a selecção
aleatória da etiqueta referida na instrução, a última instância seleccionada
dessa mesma etiqueta.
Há obviamente necessidade de complementar esta característica com a
possibilidade de o utilizador em dada altura poder repor todo o léxico inicial
(no exemplo apresentado o léxico inicial de lexema é constituído por quatro
instâncias). Para o fazer o utilizador dispõe da instrução repoe
que tem estrutura idêntica à instrução tira, isto é, se o utilizador quiser
repor a base lexical de uma dada etiqueta apenas tem de usar a instrução repoe
seguida do nome da etiqueta a repor. No exemplo abaixo a instrução repoe,
usada na linha 19, é usada para repor a base lexical da etiqueta lexema.
[texto[ {os pares de aspas forçam
mudanças de linha}
[ciclo000x02[
[lexema["A SAUDADE "]lexema]
"
"
[tira-lexema[
[lexema["A PEDRA "]lexema]
"
"
[tira-lexema[
[lexema["O GRANITO "]lexema]
"
"
[tira-lexema[
[lexema["A HISTORIA "]lexema]
"
"
[tira-lexema[
[repoe-lexema[
]ciclo000x02]
]texto]
No exemplo anterior, o texto gerado consistiria numa lista composta por
dois grupos contíguos de quatro lexemas cada, e em cada um desses grupos de quatro
iriam aparecer todas as instâncias de lexema apenas uma vez. Assim, um
resultado possível da geração seria o texto seguinte:
O GRANITO
A SAUDADE
A HISTORIA
A PEDRA
A HISTORIA
O GRANITO
A PEDRA
A SAUDADE
A filosofia do Sintext assenta na operação de selecção aleatória de
etiquetas definidas no texto matriz. A selecção de uma etiqueta consiste na
operação de escolher aleatoriamente uma instância de etiqueta do conjunto de
instâncias dessa mesma etiqueta. O texto presente nessa instância de etiqueta
irá ser incluído no texto final gerado.
Por exemplo, para o conjunto de etiquetas lexema a seguir apresentado:
[lexema["A SAUDADE "]lexema]
[lexema["A PEDRA "]lexema]
[lexema["O GRANITO "]lexema]
[lexema["A HISTORIA "]lexema]
Uma operação de selecção desta etiqueta poderia originar como resultado o
excerto de texto “O GRANITO” que seria colado ao restante texto gerado até esse
momento.
Como uma etiqueta pode ter uma estrutura mais complexa, a operação de
selecção de uma etiqueta pode implicitamente provocar a operação de selecção de
outras etiquetas que surjam no interior de instâncias dessa etiqueta.
No exemplo seguinte, a selecção da etiqueta frase vai provocar sempre a
selecção da etiqueta lexema pois esta etiqueta aparece no interior de todas as
três instâncias da etiqueta frase apresentadas.
[frase[[lexema["a saudade "]lexema]" doi "]frase]
[frase[[lexema["o granito "]lexema]" marca "]frase]
[frase[[sintagma["dos fracos "]sintagma]" não reza
"[lexema["a história"]lexema]]frase]
[lexema["a pedra "]lexema]
[sintagma["dos fortes "]sintagma]
[sintagma["dos bons "]sintagma]
No exemplo acima, apenas no caso da selecção da última instância da
etiqueta frase é que a etiqueta sintagma irá ser seleccionada.
Na operação de selecção de etiquetas, a ordem de selecção é sempre das etiquetas
mais exteriores para etiquetas mais interiores.
Apresenta-se a seguir a lista de todos os 20 resultados possíveis
decorrentes de uma operação de selecção da etiqueta frase do exemplo acima.