Ó Copyright Pedro Barbosa, 2001

 

 

A VIDA É SONHO?

 

Prefácio à peça «Anticleia ou os Chapéus-de-Chuva do Sonho»

 

 

«Estamos quase a despertar

Quando sonhamos sonhar.»

NOVALIS

 

O texto deste quase monólogo para três vozes provém de um manuscrito de adolescência, idade em que as preocupações metafísicas se tornam sempre mais prementes. Embora autónomo, começou por ser um contraponto escrito à leitura de «O Marinheiro», de Pessoa, cuja presença intertextual aqui é mais do que evidente. Ao lê-lo pela primeira vez, a fantasia do leitor adolescente que então era antecipou-se ao acto apaixonado da leitura e imaginou que a conclusão natural do solilóquio entre aquelas três veladoras ia ser a de chegar ao solipsismo mais radical, tendo em conta a defesa acérrima que todas faziam do sonho como manifestação extremada de uma atitude idealista. «Drama estático» também, «fantasia metafísica» talvez, «monólogo para três vozes» ou simplesmente «peça falada», o presente texto nasceu assim de uma derivação leitural: consolidada porém sob a forma de escrita, e já lá vão mais de vinte anos...

Por isso as alterações introduzidas hoje ao texto original são quase irrelevantes, não fossem elas desfigurar por completo uma convicção do passado que deixou entretanto de o ser mas que constituía em todo o caso a mola real da acção (ou da inacção) dramática. Porquê, então, ressuscitar este diálogo antigo, anos e anos amordaçado na hibernação das gavetas? Tanto mais que, à luz de como hoje penso o teatro, sempre me pareceu que este texto não continha em si uma genuína vocação teatral: e o destino de qualquer "drama estático" seria antes o destino da leitura, não o de um contacto directo com o público ao vivo do teatro.

Mas daqui mesmo acabou por nascer o germe da sua ressuscitação: quando, numa dessas noites em que a gente se entrega aos arquivos do passado, subitamente me apercebi de que, dando-lhe uma ligeira volta, talvez ele adquirisse alguma hipótese de funcionamento cénico. Ter-me-ei porventura enganado: mas aí está a razão para a pequena alteração contorcionista nele introduzida hoje.

Se o velho postulado: "A vida é um sonho", parece não ter qualquer possibilidade de confirmação ou de refutação científica, precisamente por ser um enunciado metafísico e, nessa qualidade, experimentalmente inverificável, que melhor meio para o colocar à prova senão o meio teatral, já que aí será criada a única possibilidade de refutação? Ou seja: a de uma rejeição vivenciada com base no absurdo existencial a que conduz e na irredutibilidade solipsista em que desemboca. Com efeito, como sentirá o público do teatro a proclamação, feita face-a-face por uma Personagem no palco, de que ele, Público, pura e simplesmente não existe? Poderá o teatro fazer recair sobre os espectadores o impasse vivencial de um tal paradoxo, ao ser-lhes directamente anunciado que não passam de "figurantes" inexistentes de um sonho sonhado por outrem (quando naturalmente cada espectador se julgará, em si mesmo, vivo para si...)?

Claro: trata-se de embrulhar aqui um paradoxo metafísico dentro de um paradoxo teatral. E ter-se-á, quando muito, um tratamento homeopático: resolver um absurdo pela sua redução ao absurdo.

Uma coisa é eu pensar para mim que a pessoa com quem falo não existe porque ela não passa da personagem de um sonho meu no qual me encontro a falar com ela; outra coisa é dizer-lhe frontalmente: «Tu não existes!». Porque ela, no seu íntimo (se realmente o tiver), pode pensar o mesmo de mim: que só ela existe e que sou eu quem não passa de um figurante do sonho dela!

Eis os dilemas deste “sonho” a que chamamos Vida.

É aqui que entra a «vivência estética» proporcionada pelo teatro: confrontar o público com este paradoxo existencial, com este jogo proposto pelas personagens – e inverter a situação. São as personagens que são reais: mas qual delas, se todas entre si se acusam de inexistirem? E é o público quem não passa de uma fantasia delas. Daí os chapéus-de-chuva, para cada um se proteger dessa cacimba enevoada que sobre todos se abaterá no fim igualmente. Mas essa chuva será real ou imaginária? Cada espectador decidirá por si ao abrir ou não o seu guarda-chuva – essa será a sua resposta prática ao dilema teórico.

O facto de o tema central desta peça abordar a antiquíssima questão de saber se a vida que vivemos não passa de um sonho, deixou assim de ser uma ideia meramente literária (pese embora o tratamento adolescente que subsiste no texto). Devo confessar que à data em que este texto foi escrito nada tinha ainda lido sobre o assunto. Leituras posteriores vieram mostrar-me que afinal o tema não era apenas uma divagação de literato mas que percorria também uma longa tradição filosófica: de Lao-Tsé a Sartre, passando por Descartes e Schopenhauer. Problema ou pseudo-problema, a verdade é que basta uma pessoa reflectir um momento para que lhe ocorra tal ideia: a dificuldade não está em formulá-la, está em refutá-la. Em «erradicá-la do nosso coração uma vez aí instalada», dirá uma das personagens do texto.

A peça de Calderón A vida é Sonho, suspeitando de afinidades no entanto não confirmadas, só relativamente tarde a vim a ler. Foram, porém, leituras posteriores que me convenceram de que o tema nunca deixou verdadeiramente de me interessar: agora, contudo, numa perspectiva diferente e num enquadramento mais teórico do que ficcional. Que leituras foram essas? Em primeiro lugar, em abono da sua antiguidade, bastará lembrar Lao-Tsé e algumas linhas mestras do pensamento oriental. Em último lugar, em abono da sua modernidade, poder-se-iam referir aqui as páginas perspicazes que Sartre lhe consagrou em L’Imaginaire. E intermediariamente, para confirmar o seu classicismo, poder-se-ia citar o Descartes das Meditações ou do Discurso do Método.

Seja embora considerado mais um tema literário do que um tema filosófico, ele não deixa de ser um tema universal: e não tem desmerecido, como vemos, a atenção reflexiva de inúmeros filósofos dos mais variados quadrantes. Citarei apenas Schopenhauer em O Mundo como Vontade e Representação.

 

«Nós temos sonhos; não poderia a vida inteira ser um longo sonho? Ou, com mais precisão: existe um critério infalível para distinguir o sonho da vigília, o fantasma do objecto real? Não poderíamos seriamente propor como sinal distintivo entre os dois o grau de clareza e de vivacidade, menor no sonho do que na percepção; com efeito até aqui ninguém teve presentes, ao mesmo tempo, as duas coisas para as comparar e apenas se pode colocar face à percepção actual a lembrança do sonho. Kant resolve a questão dizendo que é “o encadeamento das representações pela lei da causalidade que distingue a vida do sonho”. Mas, no próprio sonho todo o pormenor dos fenómenos está igualmente submetido a este princípio sob todas as suas formas, e a ligação causal só se rompe entre a vigília e o sonho ou de um sonho a outro.»

(…)

«Será para sempre impossível decidir se um facto aconteceu ou se foi simplesmente sonhado. É aqui que se manifesta ao pensamento a semelhança íntima que existe entre a vida e o sonho; ousemos confessar uma verdade reconhecida e proclamada por tantos espíritos. Os Vedas e os Puranas, para representarem com exactidão o mundo real, essa teia de Maya, comparam-no vulgarmente a um sonho. Platão repete muitas vezes que os homens vivem num sonho e que só o filósofo procura manter-se acordado.»

 

Pseudo-problema, paradoxo filosófico ou puzzle metafísico, pouco importa: o facto é que ele toma de assalto o espírito humano de um modo quase espontâneo e universal. Com a sua implicação lógica imediata: se a vida é um sonho, será a morte um despertar?

Desde a adolescência que este tema nunca deixou completamente de me interessar – tenho de reconhecê-lo. Hoje, sobretudo, como mero exercício intelectual: quanto mais não seja para lhe tentar assacar uma refutação plausível.

Daí as reflexões que se seguem e que mais não coligem do que avulsas notas de leitura à margem de Descartes, de Schopenhauer ou de Sartre. Por vezes em tom de divergência: mas prendendo-se directamente com o tema central desta peça e com a obsessão solipsista que nela figuradamente se exprime.

 

 

Anotações ao enigma do Grande Despertar

 

Um

Já a filosofia milenária da China – o Tau – afirmava poder a vida ser um sonho, sendo a morte o Grande Despertar. Mas o próprio Chuang-Tsé reconhece que nesta matéria não há demonstração evidente.

Relembre-se o argumento bem conhecido. Quando dormimos, acreditamos serem reais os objectos dos nossos sonhos e, todavia, verificamos ao acordar, por vezes com estranheza, que eram apenas ilusórios. Quem nos prova que os objectos que percepcionamos quando acordados não são arbitrários como os dos nossos sonhos e que um dia acordaremos também do estado de vigília?

Como é sabido, a dúvida sistemática foi cultivada em filosofia por Descartes, que começou por tudo pôr em dúvida, excepto a sua própria existência: é o célebre "Penso, logo existo", a suprema evidência. Com efeito, se posso colocar em dúvida a existência do mundo exterior, já não é possível a dúvida em relação à minha própria existência, visto que, se não existisse, não poderia sequer duvidar. Logo, se duvido, existo.

No Discurso do Método, Descartes formulou assim a questão que nos importa: «Não se pode negar (...) que se pode da mesma maneira imaginar enquanto se dorme que se tem um outro corpo e que se vêem outros astros e outra Terra, sem que nada disso exista. Como é que se sabe que os pensamentos surgidos em sonho são mais falsos do que os outros, quando muitas vezes eles não são menos vivos e expressivos?»

Não interessa aqui acompanhar Descartes nos contornos do seu raciocínio ao tentar dar o salto por cima deste impasse: o facto é que ele próprio confessou não acreditar que alguém lhe pudesse dar uma razão plausível para dissipar tal dúvida.

A este mesmo tema voltará na primeira das suas Meditações, o que mereceu de Sartre, com base na noção de "consciência reflexiva", uma arguta refutação em L’Imaginaire. Mas, a nosso ver, poderá assacar-se a Sartre um paralogismo equivalente ao sofisma de que ele próprio parece querer acusar Descartes. Com efeito, Sartre vê o sonho da perspectiva do "eu vigilante", do eu-sujeito; mas é necessário (e é o que faz Descartes) perspectivar o universo onírico do ponto de vista do eu-objecto, do "eu imaginário" que vive dentro do sonho –  e, a esse, não parece o sonho ser sempre um universo real?

Sartre nega ao sonho a possibilidade da percepção. Para ele, ao contrário de Descartes, o sonho nunca se oferece como apreensão da realidade. «De contrário - escreve Sartre em L'Imaginaire - o sonho perderia todo o seu sentido, toda a sua natureza própria se pudesse, um instante que fosse, apresentar-se como real. (...) Ele é vivido como ficção, ainda que uma ficção envolvente. (...) O sonho não é nunca uma ficção tomada por realidade, é a odisseia de uma consciência votada por ela mesma, e a despeito dela mesma, a não constituir senão um mundo irreal. O sonho é uma experiência privilegiada que nos pode ajudar a conceber o que seria uma consciência que tivesse perdido o seu estar-no-mundo e que ficasse privada, por isso mesmo, da categoria do real.» Este é um modo típico de olhar para o sonho de fora, a partir das categorias que usamos para nos orientarmos no estado de vigília. Temos de olhar o sonho por dentro: posicionando-nos no interior do sono. É aí que ele se torna perturbante.

Presumo que a existência do mundo exterior tem sido postulada por razões de bom senso, essencialmente pragmáticas. Mas não passa de uma crença. E nem sequer é uma crença universal, pois há culturas onde ela não existe. Ou não existe do mesmo modo: bastaria citar algumas correntes do pensamento oriental. A verdade é que até hoje, tanto quanto sei, ninguém pôde provar de modo absoluto a existência do mundo exterior.

Pondo de lado a evidência do nosso próprio "eu", resta assim a probabilidade, de um para dois, de não existir absolutamente mais nada!

 

 

Dois

Mas regressemos à imagem poética do Grande Despertar. Tal hipótese (hipótese inverificável, naturalmente...) de que a cada morte se segue sempre uma outra vida, tal como sono e vigília se sucedem alternadamente, conduz a um modelo de universo dotado de uma topologia impensável pelo infinito em que se dispersa. Poder-se-ia então refutar esta ideia mediante o argumento da sua redução ao absurdo?

Vejamos. Dentro da minha vida cabem inúmeros e infindáveis sonhos; sempre que saio de um deles regresso a este sonho maior a que chamo vida. Ora, se eu considerar a vida como um sonho dentro de outra vida maior, tenho de admitir que dentro dessa vida maior terão de caber inúmeros outros sonhos-vidas menores. Por sua vez, essa outra vida maior não passará de um dos muitos sonhos de uma outra nova vida ainda maior: e assim sucessivamente, até ao infinito... Este jogo de encaixes múltiplos vai-se amplificando em potência geométrica, com tal rapidez, que ao fim de poucos níveis o meu ser se dispersa por um número de sonhos de tal modo astronómico que o meu próprio "eu" se torna infinito.

Se multiplicarmos agora este raciocínio por todos os outros "eus", passados, presentes e futuros, que provavelmente reivindicarão para si a mesma multiplicidade infinita de "vidas-sonhos", depressa somos levados até uma espécie de teoria de Universos Paralelos ou a uma metempsicose bem difícil de conceber. Como imaginar sequer as coordenadas espácio-temporais para um Universo tão complexo, tão estratificado e tão incomensurável?

Por outro lado, a não admitir hipoteticamente a existência de "outros eus" além do meu (e o leitor que esteja a ler estas linhas já estará por certo a sentir-se atingido na sua própria integridade "egotista"...), isso equivalerá a ter de admitir um universo ainda mais absurdo e inabitável: a Solidão Absoluta, de que falará Anticleia. É o solipsismo radical.

Em qualquer dos casos, uma tal hipótese (além de ser inverificável, dado o carácter estanque postulado para os diferentes sonhos-universos) perde o seu valor explicativo porquanto, ao ser extrapolada até ao infinito, conduz a um universo inimaginável. E então, recorrendo à navalha de Occam, a hipótese de que o mundo exterior existe (por mais incompreensível e complexo que ele nos possa parecer) acaba por se tornar uma hipótese bem mais simples, bem mais cómoda e cientificamente muito mais económica.

 

 

Três

Analisemos agora a hipótese anterior por outra via. Quando reflectimos sobre a estrutura dos nossos sonhos – única dimensão a nós directamente acessível no estado de vigília – não encontramos neles nada de comparável à estratificação vida-sonho em que se cinde o estado de vigília. Em vigília eu tenho consciência dos meus sonhos (tantas vezes feitos de farrapos da realidade) e sei sempre que, vivendo, sonho; mas durante o sono, quando sonho, raramente sonho dentro desse sonho: e se ponho em dúvida o sonho que estou a sonhar, não é para dentro de um outro sonho menor, mas para dentro deste sonho maior a que chamo "vida", que a raiz da dúvida remete – e, então, acordo. Como afirmou Sartre: «Qualquer aparição da consciência reflexiva no sonho corresponde sempre a um despertar momentâneo» (L’Imaginaire).

Ora não estarei eu, neste momento, a duvidar?

Em outros termos: a relação sonho/vida e vida/outra-vida-maior não é bidireccional nem simétrica (o que parece, portanto, não legitimar analogias) - é, sim, uma relação recursiva. A hipotética relação vida/outras-vidas torna-se assim uma relação estanque que parece esgotar-se no intervalo da dimensão dual sonhos/vida.

Deste modo, o postulado de que a «Vida é um Sonho», no fim do qual (morte) haverá um novo Grande Sonho, parece não passar de uma hipótese que, além de inverificável, se torna dificilmente imaginável à medida que a desenvolvemos para lá destes dois estratos primários de imbricação.

 

 

Quatro

Vejamos agora as coisas por outro ângulo.

Quando sonho, se me interrogo colocando a dúvida: «Isto é sonho ou é realidade?» ­– invariavelmente, se a resposta que a minha consciência reflexiva obtém é a de que é sonho, então, nesse preciso instante, acordo. Digamos que, em casos destes, o estado onírico é perturbado pela consciência reflexiva, a qual, situada na esfera do real, me transporta automaticamente do plano onírico para o plano da vigília.

Ora uma outra prova plausível de que a vida não é sonho, estaria em que não se encontra um paralelismo correspondente a este no estado de vigília. De facto, quando somos assaltados pela dúvida: «Será a vida um simples sonho?», ou: «Isto é sonho ou é realidade?», aqui a consciência reflexiva não nos translada para nenhum outro lado (se assim fosse deveríamos "morrer": isto é, deveríamos acordar para um outro sonho, o sonho englobante). Bem ao contrário, a dúvida enraíza-nos ainda mais no real, quer dizer, consolida ainda mais a consciência que temos de que as nossas percepções são percepções e não simples imagens mentais de objectos impresentes.

Para que em estado onírico pudesse acontecer algo de equivalente, seria necessário podermos sonhar que "o sonho é sonho", e termos consciência disso sem o sonho ser interrompido. Ora, ao que parece, tal nunca sucede.

Ou sucede?

 

Simples alínea

Curiosamente, hoje mesmo – depois de ter alinhavado a nota anterior – sonhei que estava acordado, e pensava como seria bom poder dormir de tão cansado que estava. Eu estava realmente cheio de sono e fazia um esforço terrível para acordar – o despertador aliás, já tinha tocado. E, num desses sonhos intervalados com a vigília, eu estava num café e depois vim para a rua, sentei-me num banco do passeio e olhei o céu negro onde ainda era noite perfeita: pensei no esforço que teria de fazer para ir jogar ténis como tinha combinado (na realidade, muito fatigado ainda, eu teria mesmo de me levantar naquela manhã para ir jogar sem vontade um encontro já marcado...); deleitava-me então a imaginar como seria bom poder estar em casa para me estender na cama e fazer a vontade àquele sono terrível que me pesava nos músculos.

O curioso em tudo isto é que eu estava mesmo a dormir, mas sentia-me cheio de sono e desejoso de adormecer.

Digamos que, neste caso, eu não tinha consciência de estar a sonhar (o que não põe em questão o que atrás ficou dito), mas tinha a sensação errónea de estar acordado e desejar dormir quando, de facto, estava realmente a dormir. Não se tratava de um sonho dentro do sonho, mas do desejo de dormir dentro do dormir.

Decerto porque aquele sono solto não estaria a ser suficientemente repousante.

Ora aqui há desde já uma observação a antecipar: é que este sonho surge claramente preso à "vida real". Ele é não só uma emanação do próprio real (eu tinha de facto de me levantar cedo naquela manhã, mas sentia-me ainda cheio de sono para o fazer…), como era ao mesmo tempo o transporte de uma sensação igualmente enraizada no real (talvez por isso eu me imaginava em vigília e desejava tanto dormir).

 

 

Menos quatro

Claro que isto é pensado tendo como referência a vida (este sonho-realidade no aqui e agora). Poderia ser pensado exactamente ao contrário, negativamente, se a referência se situasse noutra fronteira.

Por exemplo.

Que o equivalente, deste lado da "realidade", não seria duvidar epidermicamente da vida (como acontece enquanto escrevo este texto) mas sim duvidar, no mais íntimo da minha consciência, de estar vivo. Qualquer dúvida do tipo: «Será que estou vivo ou estou morto»? E esta dúvida é precisamente a que é relatada pelos que regressam dos chamados estados próximos da morte - como se o apelo dessa "outra" consciência reflexiva permanecesse numa espécie de limbo, não chegando para os atirar para o lado de lá... Só esta dúvida interna é que corresponderia à dúvida que, no interior dos sonhos, nos faz acordar: «Estou ainda a sonhar ou estou acordado»? Nos sonhos em que uma consciência difusa nos diz que estamos acordados dentro do sonho, continuaremos a sonhar mesmo com a desconfortável sensação de nos sentirmos acordados ­­– a consciência reflexiva vígil não é suficientemente forte para nos sugar para o lado de cá da vida (ou para a “morte” no sonho). Nos sonhos em que a consciência reflexiva nos segreda claramente ao ouvido que "estávamos" a sonhar, mas já quase despertos, então somos atirados para o lado de cá e acordamos sem remédio (o sonho dissipa-se).

Estes estados de dúvida dentro do sonho, nos seus vários matizes de intensidade, não poderão ser considerados equivalentes a esses estranhos casos, relatados sempre segundo o mesmo padrão, das experiências ditas de quase-morte?

 

 

Cinco

Servirá o último sonho para exemplificar (situando-nos de novo nesta perspectiva) como os sonhos se constituem na dependência da vida? É claro que estamos a considerá-los, do exterior, pelo lado da consciência vígil: de qualquer modo eles nunca deixam de nos parecer feitos de fragmentos, desejos ou memórias, emanados da vida real (rostos de pessoas conhecidas, cenas do nosso passado vivido, preocupações futuras, etc.). E não os vemos apenas na dependência da vida, mas também no interior dela: temos a noção de sonhar muitos sonhos e, no fim de todos eles, afluímos sempre ao mesmo rio da vida.

Vistos do lado de cá, os sonhos são como que efluentes e afluentes do grande curso da vida: dela partem e a ela regressam.

Os sonhos parecem assim ter um estatuto ontológico secundário em relação à vida; neles nem sempre esquecemos que viemos da vida e por isso mesmo nos interrogamos, antes de acordar: «Será que estou acordado ou a sonhar?». Na vida, pelo contrário (salvo a teoria dos arquétipos ou a teoria reencarnacionista), nunca nos lembramos de nenhuma outra existência anterior da qual tenhamos partido e que seja mais pregnante do que ela.

Mas será isto verdade? Ou é apenas porque o pensamos e dizemos do lado de cá da vida?

É que lidamos aqui com uma estrutura de “caixas chinesas” (uma estrutura recursiva): olhar as coisas pela estrutura “encaixante” resulta diferente de olhá-las através da estrutura “encaixada”.

 

 

Menos cinco

O mais estranho em tudo isto é aquilo que permanece de sonho para sonho, e no trânsito de cada sonho para a vida: precisamente aquilo a que chamamos "eu". Este "eu"  não é apenas o lugar geométrico vazio que os linguistas identificam como o sujeito do discurso, esse ponto zero equivalente a um qualquer sujeito abstracto de enunciação. O "eu" que sonha não é apenas a fonte dos seus sonhos, a sua origem: é uma "consciência" vigilante que transita de sonho para sonho, sentida sempre como a mesma, ainda que o corpo que veste ou o universo que habita sejam sempre diferentes. Este «eu» que sonha e onde me sinto sempre o mesmo em universos tão diferentes, parece ter substância – precisamente (em sentido etimológico estrito) uma substância meta-física a que muitas culturas chamam "alma" ou "espírito" e nós chamaremos «eu essencial». É sempre a mesma "consciência" que habita os meus sonhos múltiplos e que “eu” arrasto comigo quando salto entre esses mundos sonhados ou desses mundos sonhados para a Vida. Que mistério é esse?

A metempsicose, a tão popular crença na transmigração das almas que transitam de corpo em corpo – ou a famosa teoria da reencarnação - não obedecem exactamente ao mesmo padrão? Padrão que parece universal, emergindo em quase todas as culturas de todos os tempos (por mais que a nossa racionalidade se escuse a compreendê-lo e a aceitá-lo). O que nos resiste é a crença de que algo, talvez essa sub-stância da nossa consciência a que chamamos «eu», há-de permanecer para lá da morte corporal.

Mas vejamos: não é exactamente ao mesmo modelo que recorremos quando lançamos uma visão panorâmica aos nossos sonhos e à relação deles com este sonho mais amplo a que chamamos Vida? Mudamos de mundos e de corpo, mas a nossa consciência permanece a mesma - é o mesmo «eu» que percorre essa alteridade infinita de micro-universos. É claro que só podemos observar as coisas a partir da dimensão em que nos encontramos ou através da escassa memória que temos das outras. Mas não será esta posição privilegiada em relação ao subsistema dos nossos múltiplos sonhos? Não nos encontramos aqui do lado de “lá” em relação a esses outros universos?

Por mais diferentes que sejam as estruturas dimensionais destes micro-universos oníricos, há pontes entre eles. Rastos que ficam por vezes na nossa memória conturbada quando acordamos e nos lembramos de um sonho ou de um pesadelo? Os nossos sonhos alimentam-se dos traumas da nossa vida (que neles se resolvem, segundo a psicanálise) tanto quanto alguns sonhos mais marcantes (os sonhos numinosos, os pesadelos) interferem e nos obsidiam do lado de cá, depois de acordados e em perfeito estado de vigília.

O «eu» que sonha e o «eu» que acorda mantém-se o mesmo apesar do mundo onírico ter desabado e esse «eu» ter passado para uma outra dimensão da realidade (o estado de vigília) que engloba esse sonho. Por vezes, ao acordarmos, lembramo-nos do sonho e ficamos a pensar nele (como nas ditas reminiscências de «vidas passadas» - qualquer que seja a sua validade científica - subjectivamente revividas por regressão hipnótica): lembramo-nos do sonho mas, uma vez acordados, já não podemos interferir nele porque esse mundo dissolveu-se e entrámos noutro mundo. A consciência do «eu» é esse elemento unificador, na cadeia infinita de sonhos (metempsicoses), que transpõe as barreiras ônticas de uns para os outros. O sujeito consciencial do sonhador sente-se centrado no mesmo, apesar de os mundos (sonhos) que dele brotam serem sempre outros e incomunicáveis entre si. Trata-se de uma autêntica «reencarnação» (no sentido etimológico do termo): esse «eu» que entra, sai e reentra em sonhos/vidas sucessivas. Paradoxalmente, a unidade dessa «consciência» sonambúlica permanece. Mas porque é que o «eu» que acorda noutro universo (com outro corpo e outra vida) se sente o mesmo «eu» que sonhava quando vivia dentro desse outro pequeno mundo (onírico) de onde saiu?

Sartre conta um curioso sonho que repetidamente o acometia: sonhava que o iam guilhotinar, e o sonho acabava no preciso momento em que enfiava o pescoço na guilhotina. Não era o medo - confessa ele - que motivava o despertar; porque, por paradoxal que pudesse parecer, esse sonho não se apresentava como um pesadelo. «Era antes a impossibilidade de imaginar um depois. A consciência hesita, esta hesitação  motiva uma reflexão, e é o despertar.» (L'imaginaire) Sartre relata este sonho recorrente para exemplificar a sua tese de que o sonho se aparenta com uma ficção. E o fim deste sonho encontra-se no próprio sonho: porque a história sonhada chega a um acontecimento que, em si mesmo, se dá como um termo, quer dizer, como qualquer coisa cuja sequência é inconcebível. Ele analisa o sonho da perspectiva da vida. Mas (perguntaríamos agora nós) quem sobrevive à guilhotina e acorda na cama? O mesmo Sartre. Colocando-nos agora no ponto de vista do sonhador: que há de mais semelhante a uma morte dentro do sonho? E para ressurgir onde? Na vida.

Este «eu» não é, pois, apenas o sujeito de um discurso onírico, esse lugar vazio dos linguistas que situa o falante face ao interlocutor e diz «eu» ou «tu». O «eu» sonâmbulo do Sonhador é essa perturbante consciência de si mesmo que parece ser uma entidade metafísica, pois transita incessantemente de sonho em sonho, e do sono para a vigília, através de uma complexa teia de universos recursivos encaixados. Como é que esse "eu" integra e dá unidade à infinita cadeia de sonhos-vidas que constitui no seu todo o percurso existencial (o “karma”) de uma consciência?

Se a vida é um sonho, então a morte há-de ser o momento em que se acorda. Para um outro sonho maior: o Grande Despertar?

 

 

Seis

Eis então alguns postulados para um «teoria fractal» dos sonhos.

1) Os nossos sonhos são “autodiegéticos” e com focalização interna, quer dizer, o nosso «eu» situa-se sempre dentro deles como agente vivenciador, por isso (creio) raramente nos lembramos aí do nosso corpo, habitamo-lo, estamos dentro dele e é através dele que vemos os outros e o mundo em que estamos e em que agimos.

Estamos situados subjectivamente e corporizados no sonho, tal como na vida.

Não há, creio, sonhos vistos por fora, com focalização externa e em relação aos quais ficássemos de fora como numa tela de cinema; estamos sempre dentro deles – incarnados no seu universo.

Por isso o sonho nos dá a sensação de que o vivemos, de que é uma vida real enquanto o experienciamos – a nossa consciência e o nosso corpo habitam o sonho por dentro. Tal como na vida.

2) Mas estará o sonho dentro de mim ou eu dentro do sonho? Será o sonho apenas um filho do sono?

Esta questão põe a oscilar entre dois pólos diametralmente opostos a relação vida/sonho.

Se os sonhos estão dentro da vida, e a vida por sua vez é um sonho que está dentro de outra vida maior, a qual por sua vez é um sonho (com outros sonhos dentro), que está dentro de outra vida ainda maior, e assim infinitamente – então entramos numa estrutura recorrente de encaixes múltiplos ligados por um vínculo sem fim... Uma estrutura fractal? Talvez a mais complexa da natureza. Fica lançado um repto aos matemáticos para formularem o modelo apropriado de uma “teoria fractal dos sonhos” assim postulada!

3) Primeira hipótese.

O Sonho (dentro do Sono) é usualmente visto como um modo não-consciente de estar-na-Vida. Ele faz parte do ciclo circadiano que divide o fluxo da nossa experiência vital em duas fases alternadas: uma de atenção desperta (dia) e outra de suspensão dormente (noite). Em suma: a vida, nesta perspectiva (que é a perspectiva da vida), não pode ser um Sonho!

Porque o sonho ocorre durante o Sono. Ora o sono é um estado de in-consciência. Ele implica um corte dos nossos sentidos com o mundo exterior, uma perda transitória da consciência da realidade material. Mas, mesmo assim, o sonho é uma manifestação da nossa actividade mental, do nosso espírito, pois durante esse estado de corte com a «Natureza» o sonho parece manifestar a capacidade da nossa consciência em existir independentemente da sua ligação sensorial ao mundo material.

Podemos, contudo, pensar de outro modo, mesmo aceitando que o referente dos nossos sonhos continue a ser a vida real.

E entramos na segunda hipótese.

Porque, num Sonho, a “vida real” apresenta-se como uma verdadeira “vida passada” em relação a ele.

Por exemplo. Suponhamos que no sonho alguém está sob a angústia de um pai agressivo ao qual não consegue escapar. Ao acordar, sente-se aliviado por tudo ser “irreal” e apenas ter acontecido dentro do sonho. Mas pode suceder que a memória opressiva de um pai alcoólico e violento, na “vida real”, estivesse a engendrar esse mesmo sonho e a perturbar o sonhador (na verdade, muitos sonhos têm a sua génese em experiências “passadas” na vida real). Coloquemo-nos então na perspectiva do sonhador no momento do sonho. Ele não tem consciência da génese do seu pesadelo, a não ser no momento em que desperta (em que “morre” para o sonho) – porque a sua consciência onírica não pode estabelecer nexos para a memória anterior da vida real dentro da qual o sonho ocorre. Contudo, se nesse sonho o sonhador fosse sujeito a uma regressão hipnótica (como as que fizeram moda em programas do tipo O Sono da Verdade), o que sucederia? O hipnólogo diria que esse sujeito estava a ser vítima de uma situação “mal resolvida” numa vida passada, a qual estava a interferir nele e a causar-lhe angústia!

Ora essa suposta “vida passada” (na perspectiva do sonho) não passa da vida real (na perspectiva do sujeito acordado). Ou seja, e raciocinando pela contra-mão, voltamos à insolúvel questão primordial: será a Vida um Sonho?

Na vertigem deste jogo de encaixes, tudo depende pois da perspectiva em que nos situemos.

 4º) O mais curioso é reencontrarmos aqui a antiquíssima e quase universal teoria da metempsicose, transmigração das vidas ou reencarnação. O padrão nuclear é o mesmo: o mesmo «eu» (a mesma consciência de si), habita sonhos ou vidas sucessivas, mas mantém a misteriosa e perturbante identidade desse «eu essencial» que sonha, mesmo quando encarna corpos e biografias completamente diferentes... Ou seja, a identidade desse «eu» consciencial (o espírito na linguagem corrente e esotérica) perdura no trânsito infinito da cadeia de sonhos, apesar de estes serem sempre e sempre diferentes entre si.

A estrutura fractal de sucessividades interpenetradas é muito semelhante: apenas aqui despojada de conotações religiosas, bem como do seu peso ontológico.

Não será pois sensato procurarmos a origem deste padrão universal, que é a metempsicose, não fora, mas no interior de nós mesmos? Um arquétipo extraído da nossa experiência subjectiva mais profunda? Sobra depois o mais difícil: analisar como é que esse arquétipo emerge diferentemente para as várias culturas e aí é teorizado segundo modelos variacionais distintos...

5º) Em suma.

Tal como na concepção clássica, o sonho é claramente determinado pela “vida passada” (que, neste caso, é a vida real) – e só a este nível de abordagem se aplicaria, por exemplo, a teoria psicanalítica dos sonhos. Ela não é posta em causa, apenas fica restringida ao plano da dualidade vida-sonho. Todavia, esta abordagem da psicologia clássica ganharia em ser ampliada para um conjunto de planos mais vasto: que é a sucessividade labiríntica dos sonhos intersecionados numa estrutura de encaixes infinitamente  recursiva.

 

 

Sete

Podemos, contudo, pensar exactamente ao contrário.

Quando olhados de um plano abstractamente superior, o sonho e a vigília parecem distinguir-se por alguns atributos. Apenas interessará invocar aqui de soslaio dois ou três. 

A) A vida apresenta-se como um continuum cronológico que se cumpre num ciclo completo, com princípio, meio e fim: nascemos, vivemos e morremos. A vida só acaba quando alguma ocorrência nela não permite um depois e determina a morte (acidente, doença, etc.). Os sonhos, pelo contrário, parecem fragmentários, simples flashes ou cenas estilhaçadas (ainda que quando a nossa consciência está mergulhada no seu interior não se aperceba disso): eles não começam com o nosso nascimento nem acabam, geralmente, pela nossa morte.

A verdade é que dentro de cada fatia de sonho, nós, protagonistas dele, temos sempre uma biografia implícita, com nascimento e morte presumíveis: é irrelevante, pois, que tais acontecimentos só circunstancialmente ocorram dentro do sono. Quem, em vida, se lembra do seu nascimento? E quem, em vida, tem consciência do seu fim?

B) Também não vale a pena insistir nas leis bizarras a que o mundo onírico obedece, diferentemente das categorias que usamos para nos orientarmos no mundo real. A ausência, no sonho, dos princípios básicos da racionalidade (como sejam o princípio da identidade ou da não contradição, a causalidade, a cronologia) só nos parece absurda quando analisamos o sonho a partir do estado de vigília. Dentro dele, a nossa consciência vive-o com toda a naturalidade e sem qualquer sentimento de estranheza: as regras do mundo onírico fundam-se antes numa “lógica da analogia” e portanto no princípio do “terceiro incluído” – que são da ordem do simbólico. É sobre a discrepância destas regras basilares que a fractura se estabelece: mas a colisão só surge quando transitamos de um nível para o outro, nunca no seu interior.

C) Finalmente, a vida parece oferecer maior consistência ôntica do que os sonhos. Mesmo quando neste preciso momento estamos a colocar esta questão, quando admitimos duvidar da vida e presumimos que ela possa ser ilusão, não abalamos, com isso, os seus alicerces: não "morremos". No sonho, porém, quando a dúvida se instala e nos interrogamos sobre se estamos a sonhar ou acordados, logo o sonho se desfaz e acto contínuo despertamos (salvo em certos pesadelos onde o peso do sonho é tal que resiste por algum tempo à intromissão da consciência reflexiva).

Mas isto mesmo o que prova? Que de dentro dos sonhos lançamos âncoras para o "real", estabelecemos pontes “de” e “para” a vida. Neles sabemos difusamente que ela existe e por isso nos interrogamos: «Estou a dormir ou acordado?», «Isto é sonho ou é vida real?». Do interior da vida, contudo, para onde lançamos nós tais âncoras?

Claro que isto depende das convicções metafísicas e religiosas de cada um. Mas a vida real não parece ser, como nos sonhos, a emanação de uma outra realidade mais pregnante do que ela. Quando é que a vida nos surge como a reminiscência intervalar de uma outra Grande Vida, da qual tenhamos partido para um simples sono e à qual regressaremos em estado de dúvida terminal? O seu equivalente seria a crença mítica, também ela difusa e universal, de que «algo» possa existir para além da vida? Apenas esse arquétipo transcultural? Nada nos fala disso, contudo, enquanto a consciência reflexiva se mantém vigilante e em plena integridade: só quando ela se dissolve – como nos sonhos – perdemos o pé e resvalamos. Para onde?

Deixamos a resposta com o leitor.

Porque a vida parece constituir sempre uma referência imediata para o mundo onírico.

D) Mas é sempre com desconforto que o nosso pensamento se move por dentro de uma estrutura fractal, recursiva, que tem o seu quê de assimétrico e de labiríntico. A complexidade infinita: eis a conexão global entre a vida e a multiplicidade dos sonhos. Parece que só uma geometria fractal poderia modelizar um tal universo labiríntico. Uma estrutura infinitamente divisível, dentro da qual se encaixam sub-estruturas recorrentes e transitáveis entre si (no duplo sentido dentro/fora), mas idênticas à supra-estrutura em cada nível de ampliação.

É a similaridade entre os objectos fractais e a Natureza que nos conduz à estrutura da Vida assim concebida: uma estrutura natural de complexidade infinita.

Mas a relação Vida/sonhos, no seu interface directo, também tem algo do anel de Moebius: fechando-se sobre si mesmo numa circularidade sem fim, onde o fora e o dentro se indistinguem, deslizando um sobre o outro num percurso indefinido e numa permanente vertigem. A linha contínua da Vida percorre assim uma estrada moebiana, sem dentro nem fora, onde as duas faces da relação vigília/sono são as duas dimensões de uma única superfície que só possui um lado.

Um labirinto fechado, portanto – eis o enigma da vida e da morte para o paradoxo filosófico que nesta peça se sustenta.

 

 

Oito: final

Tudo isto nos ocorre quando pensamos as coisas pelo lado da Vida, que é de onde agora as pensamos, e porque não pode ser de outro modo. A vida: quer dizer, este sonho actual a que, para efeitos práticos, chamamos «realidade» – e ao qual por isso mesmo atribuímos consistência existencial. O círculo é vicioso e viciante. Mas ficará sempre a dúvida lançada por uma velha parábola (relembrada numa crónica de Eduardo Prado Coelho): «Eu poderei ser um homem capaz de sonhar que é uma libélula, mas como posso estar certo de que não sou neste momento uma libélula que está a sonhar que é homem?»

 

                                                                                                                                                                                                            PEDRO BARBOSA

                                                                                                                                                                                                                                                                                  (Em Dezembro de 1990)

Ó Copyright Pedro Barbosa, 2001

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