Ó Copyright Pedro Barbosa, 2001
COMUNICAÇÃO TELEPÁTICA SOB INDUÇÃO HIPNÓTICA
(semiose
de uma experiência pessoal)
Pedro Barbosa
«Du reste, toute parole étant
idée, le temps d’un langage universel viendra!
(...) Cette langue sera de l’âme
pour l’âme, résumant tout, parfums, sons, couleurs (...)»
Rimbaud, carta a Paul Demeny, 1871
1.
Contextualização: telepresença e
psi-net
2.
Sobre o mito da linguagem
universal
3.
Algumas experiências pessoais:
hiperestesia e telepatia
5.
Conclusões e análise
semiótica
1. Contextualização: telepresença e psi-net
O texto que se segue constitui o suporte verbal de uma
comunicação apresentada no âmbito do Simpósio Internacional «Fronteiras da
Ciência», organizado pela Sociedade Portuguesa de Exploração Científica (Spec)
em Novembro de 1997.
Ele constitui assim em parte uma legenda - longa legenda… - às
imagens documentais de várias experiências avulsas realizadas com carácter não
sistemático e de certo modo lúdico, muitas delas, aliás, registadas em vídeo e
aqui apenas sumariamente relatadas. Excluindo deste artigo, por razões óbvias,
o recurso ao audiovisual, que sentido
farão nele as palavras sem os factos que as convocaram?
Se alguma justificação nos assiste, ela está no facto de
experiências recentes no domínio da parapsicologia parecerem demonstrar que
fenómenos ainda não explicáveis, tais como a telepatia, a hiperestesia e a
visão remota, se replicam agora com uma vastíssima frequência no imenso campo
da comunicação telemática. Hoje, com efeito, uma pesquisa sobre a telepresença
pode implicar também a noção de “ciber-recepção”: e o Centro de Parapsicologia
em Edimburgo, através do Prof. Koestler Robert Morris, realizou já experiências
de laboratório tendentes a optimizar as condições da transferência, por
telepatia, de imagens e de sensações entre duas mentes afastadas no espaço – no
espaço telemático.
O vazio presencial que as novas redes
electrónicas - caso da World Wide Web - instauram entre duas consciências
comunicantes, parece curiosamente ter reactivado modalidades complementares de
comunicação interpessoal, que vêm precisamente preencher de modo lateral esse
vazio aberto entre as pessoas sensorialmente distanciadas no espaço. Refiro-me
a essa atmosfera de “intuições” mais ou menos vagas que tantas vezes acompanha,
rodeia e dá contorno à comunicação descorporalizada que o ciberespaço dos
nossos dias popularizou.
Daí justificar-se a reflexão
despretensiosa que aqui se disponibiliza, tentando fornecer mais um contributo
para a compreensão destas intrigantes modalidades de comunicação empática,
aparentemente estabelecida sem o suporte de sinais materiais identificáveis à
luz da ciência contemporânea.
Importa acentuar que a maioria das
experiências aqui relatadas se encontram registadas em vídeo, o que, para além
do seu valor documental, possibilita
uma análise mais pormenorizada da situação concreta em que ocorreram.
E, passe a aparente contradição, irei tentar uma aproximação
semiótica a estas formas de comunicação não-semiótica. Quer dizer: sem
“sinais”?
Agrafemos então aqui a nossa própria experiência pessoal e a
reflexão semiótica a que deu origem.
2. Sobre o mito da linguagem universal
Não pretendo aqui senão levantar as pontas de um véu: sobre o
mito da linguagem universal que
percorre quase todas as culturas e parece estar presente, enquanto arquétipo
dinâmico, na zona obscura da nossa mente colectiva.
O sonho de reencontrar a língua edénica, a língua das origens, a
língua primeva dos progenitores enquanto língua-fonte originária, pré-babélica,
anterior à confusão universal, atravessa toda a cultura ocidental desde a
Antiguidade. Percorre a Idade Média, o Renascimento e refloresce na Idade
Moderna com a visão historicista, impregnando fortemente as investigações de
linguística histórica do século passado, onde a involução da linguagem fez
remontar a arqueologia das línguas ocidentais até ao sânscrito e a um
hipotético primevo indo-europeu.
Mas esse mito regressivo segue de par com o
projecto de fundar uma língua universal,
válida de novo para todos os homens, de que o Volapuk e o Esperanto terão sido
porventura os exemplos mais difundidos desde fins do século passado. Hoje, na
Era Espacial, este sonho amplia-se até uma dimensão cósmica: o desejo de
encontrar uma linguagem constituída de sinais facilmente interpretáveis por
supostas civilizações extra-terrestres acompanha mesmo algumas naves e sondas
interplanetárias, como foi o caso da Pioneer
10, em 1972, com a mensagem que levou para fora do sistema solar (Carl
Sagan). Mas a suposta língua perfeita das imagens exige de outros seres um
dispositivo visual semelhante ao nosso, o que não é de todo provável; por outro
lado, uma linguagem universal de base matemática, como foi o caso do projecto
Lincos, elaborado pelo matemático holandês Freudenthal (1960), exige
dispositivos de raciocínio equivalentes aos nossos; e a emissão de ondas
rádio-astronómicas (Carl Sagan: «Contacto»),
pressupõe também dispositivos tecnológicos semelhantes aos do estádio actual da
nossa própria civilização...
Não serão todas estas tentativas ingenuidades antropomórficas,
ainda que nascidas de um anseio humano comum de contacto com outras civilizações extraterrestres?
Placa enviada a bordo da nave espacial Pioneer 10 (figura 1)
Aqui se intercala a hipótese ovnilógica. Um rasto arquetípico
deixado por eventuais contactos anteriores com extra-terrestres de passagem
pelo nosso planeta? Contactos quânticos com seres alienígenas de natureza
proto-física exterior ao mundo espácio-temporal onde desenvolvemos a nossa
acção? Rasto memorial sobrevivente ainda nas mitologias, religiões, ciências
ocultas, bem como em todas as aparições e divindades dotadas de poderes tidos
como sobrenaturais? Seriam efectivamente os deuses astronautas? Sempre
interpretámos o desconhecido mediante o conhecido...
Occam subscreveria certamente uma hipótese deste tipo, já que
seria a mais simples e abrangente para explicar o inteiro domínio do até hoje
inexplicável. Mas de momento, infelizmente, não se pode passar disso: da
formulação de hipóteses à espera de confirmação.
A ideia aqui avançada é então esta: a linguagem universal,
enquanto mito ou enquanto projecto, não deverá passar antes pela indiferenciação dos sinais, em vez de
aspirar, como tem acontecido, à sua utópica uniformização? Não deverá
apontar-se antes na direcção de uma comunicação não-semiótica, tele-pática,
mente-a-mente, ou seja, passando por cima da diferenciação civilizacional das
línguas, dos sinais, dos sentidos, ou até por cima duma diferenciação biológica
e mental? Nesta perspectiva, a telepatia seria a encarnação ideal do mito da
“linguagem universal”, essa língua de “iluminação
interior” com que nas religiões os deuses falavam aos homens inspirados.
Mais: a telepatia assumir-se-ia como uma linguagem pânica, totalizadora, capaz
de superar as barreiras do espaço e do tempo!
Mas quando aqui se sugere a telepatia como comunicação
universal, não deverá, porém, inferir-se que a estamos a colocar num estádio
evolutivo superior como se a ela coubesse qualquer missão do tipo de uma
comunicação pós-verbal. Trata-se quanto a nós de um meio de comunicação
lateral, ao qual os seres vivos recorrem quando os dispositivos sensoriais,
mentais ou biológicos são desajustados e não recíprocos entre si. Nesta
perspectiva a telepatia pode também funcionar como uma forma de comunicação
pré-verbal.
Veja-se: como comunica a mãe com o seu bébé recém-nascido? Como
“sabem” as mães o que os afecta quando eles choram e ainda não sabem falar?
Como é que os homens e os animais comunicam entre si? Trata-se aqui
(comunicação mãe-filho, comunicação homem/animal) de uma comunicação
pré-racional, pré-lógica, empática, intuitiva, subconsciente, hiperestésica:
não são os conteúdos racionais que são comunicados, mas sim os conteúdos
pragmáticos, sensoriais, emotivos ou de ordem afectivo-emocional.
Por isso a comunicação
verbal, ao nível da comunicação lógica, racional e consciente, continua a
ser indispensável e insubstituível pela telepatia. A palavra integra uma linguagem inter-humana elaborada,
construída e codificada para a comunicação rigorosa de elementos racionais,
analíticos e logicamente organizados, que a comunicação empática e hiperestésica
nunca poderá fazer passar senão de uma forma global, gestáltica, muito vaga e
imprecisa. A linguagem verbal parece, portanto ser a forma de comunicação
racional mais elaborada e insubstituível num estádio do conhecimento científico
– a comunicação inter-humana por excelência. Que fique isto bem claro.
Contudo, não será preciso recorrer às ciências cognitivas para
compreendermos como qualquer imagem do mundo (qualquer sistema epistemológico)
depende das bases biológicas e dos
aparelhos sensoriais através dos quais qualquer ser vivo entra em contacto com
o mundo e com outros seres vivos: que pode um verme (cego, surdo e mudo) saber
de nós ou do mundo que o rodeia? Como conceber um eventual processo
comunicativo entre esse “verme” e um ser humano? Ou entre nós e o habitante de
Sírius com que no século XVIII, em «Micrómegas»,
sonhou Voltaire? Se imaginarmos uma lesma a deslocar-se num plano a duas
dimensões (para a frente, para a direita e para a esquerda) qualquer mosquito
voador, proveniente da terceira dimensão (partindo da hipótese de que a lesma o
poderia percepcionar), aparecer-lhe-ia como um ser alienígena emergente de um espaço-tempo que lhe é parcialmente
estranho...
A mitologia como sistema de crenças percorre todas as
civilizações: e a crença em entidades transcendentes ou sobrenaturais, presente
em todas as religiões, está hoje, no século XX, a ser substituída pela mitologia dos extra-terrestres.
Mitologia que hoje se começa a recortar com nitidez, mas cuja proveniência é
bem mais antiga: basta lembrar os «Entretiens
sur la Pluralité des Mondes», de Fontenelle, em 1686. Há pois razão para
perguntar, à luz desta mitologia nossa contemporânea: serão os deuses
astronautas? Aqui está uma pergunta que só a era espacial poderia formular.
A esta hipótese se liga a hipótese
telepático-cósmica: a hipótese de uma telepatia universal conectando as
consciências do universo! Por essa via se clarificariam todos os domínios do
inexplicável milenar: as influências astrológicas provenientes, segundo alguns,
de determinadas zonas do espaço, os arquétipos universais do nosso inconsciente
colectivo (Jung), determinadas heranças genéticas e as criações geniais de
indivíduos inspirados, a intuição, enfim, e todos os arquétipos culturais,
mitos, fenómenos PSI, pré-cognição e clarividência, profetismo, milagres,
religiões, misticismo, mediunidade e todo o domínio do ocultismo e da
fenomenologia ufológica...
O facto é que em todas as religiões e mitologias a comunicação
humana com entidades transcendentes, divinas, proto-físicas, sobrenaturais ou
alienígenas, envolve sempre uma espécie de iluminação
interior em tudo semelhante à comunicação telepática.
Umberto Eco, em «La
Ricerca della Lingua Perfetta», ousa escrever: «Imaginemos uma comunidade
de seres com poderes telepáticos
desenvolvidos - o modelo poderia ser o dos anjos
que liam as mentes uns dos outros,
ou apreendem todos as mesmas verdades lendo-as na mente de Deus: para seres de
semelhante tipo, a estrutura
interaccional de pergunta e resposta não teria qualquer sentido.» (À procura da Língua Perfeita, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa,
Presença, 1996, p.289)
O modelo de uma “linguagem espacial” ou melhor, de um processo
de comunicação cósmica universal,
deveria exactamente ser concebido sobre este modelo tele-pático, mente-a-mente, que prescindisse de recorrer a sinais materiais sensíveis ou a
quaisquer objectos físicos.[1]
Um processo comunicacional, por conseguinte, independente da natureza biológica
ou dos dispositivos sensoriais e racionais dos seres envolvidos no processo,
bem como da aparelhagem tecnológica que em tal caso mediaria sempre a
emisão-recepção dos sinais entre seres pertencentes a mundos físicos
diferentes.
Até agora, com efeito, todas as tentativas de contacto com
eventuais civilizações extra-terrestres sempre foram sustentadas em processos
comunicacionais dependentes de sinais materiais: o que pressupõe que outros
seres, a existirem, deverão possuir dispositivos sensoriais equivalentes aos
nossos, bem como a mesma estrutura de raciocínio - o que será de todo
improvável, a admitir que tais seres possam habitar meios físicos totalmente
diferentes do nosso. Basta pensar na grande diversidade dos dispositivos
sensoriais e cerebrais existentes nos próprios seres vivos do planeta que habitamos:
como comunicar, por exemplo, com um
peixe ou um insecto?
Sublinhe-se, neste domínio, que a grande percentagem dos
testemunhos não falsifiáveis de relatos descrevendo presumíveis contactos
humanos com supostos seres alienígenas ou extra-terrestres apontam todos, desde
os textos bíblicos, para contactos
psíquicos não mediados por qualquer linguagem articulada (falariam eles em
inglês, espanhol, português, japonês, sânscrito, hebraico?). Todos estes
relatos sugerem contactos do tipo telepático ou extra-sensorial, por
hiperestesia indirecta do pensamento (tipo ondas psi-gama), onde o processo de
comunicação se apresenta de uma forma global, empática, não mediatizado por
sinais materiais reconhecíveis, levando a pensar numa comunicação metapsíquica sem
semiose materializável.
Haverá pois que aprofundar e estudar melhor as condições em que
se estabelece este processo comunicacional, aparentemente sem mediação de
sinais materiais (ou então indiscerníveis à luz dos conhecimentos actuais).
Tratar-se-á de uma comunicação empática, global, directa, mente a mente, de
determinados conteúdos da consciência? Uma comunicação, por conseguinte,
não-semiótica? Admitindo que possam
existir no Espaço-Tempo outras civilizações de seres evoluídos, estes seres
hão-de ter, por definição, consciência ou actividade mental: e ainda que os
seus dispositivos sensoriais e de raciocínio possam variar, isto leva a aceitar
que, de entre todas as modalidades comunicativas ao nosso alcance, a mais
universal e menos circunstancial será por certo a que envolva um contacto
mental de tipo telepático, independente, enquanto tal, das barreiras do espaço
e do tempo... Compreender, desenvolver e controlar tal procedimento
comunicativo, seria caminhar em direcção a um contacto ideal com outros seres
inteligentes e promover o estabelecimento de ligações mentais onde e quando eles possam eventualmente existir. É nosso propósito, com
base em algumas experiências simples, analisar e delimitar as potencialidades e
as limitações semióticas deste tipo de interferências mentais.
A hiperestesia, a telepatia e a percepção remota, a serem
devidamente estudadas e manipuladas, poderiam configurar precisamente esse
anseio de uma comunicação universal
ideal, mente-a-mente. E isto tanto a nível inter-humano e como extra-humano: já
porque se prescinde de quaisquer sistemas de signos culturalizados, já porque
tudo parece acontecer fora do tempo e do espaço, onde por conseguinte as
distâncias, quaisquer que sejam, não constituem obstáculo.
Limitar-me-ei, contudo, à descrição esquemática de algumas
experiências pessoais documentadas, extrapolando a partir delas as conclusões
possíveis para uma análise semiótica
do processo comunicacional envolvido.
Trata-se de umas quantas experiências concretas, esporádicas, em
larga medida improvisadas, e por isso mesmo não sistemáticas, por nós próprio
realizadas de modo empírico. Terão alguma validade? Têm seguramente a vantagem
de as podermos analisar com conhecimento de causa, e tendo para elas partido
com o mais radical dos cepticismos. Não
se tratou apenas de “VER PARA CRER”, mas sim de “FAZER PARA CRER”.
3. Algumas experiências pessoais: hiperestesia
e telepatia
O nosso objectivo prioritário foi colocar em confronto a
comunicação hiperestésica e telepática realizadas em dois estados de
consciência distintos: em estado de vigília e sob indução hipnótica.
Designaremos sempre por M1
a mensagem de origem “induzida” à partida e por M2 a mensagem “captada” à chegada.
Importa referir que grande parte destes experimentos, realizados
com algum carácter lúdico, ficaram registados em vídeo: registos que, por
razões óbvias, não poderão ser integrados no suporte escrito deste artigo.
1ª experiência
(Figuras 1 e 2 - experiência registada em vídeo, a 18 de Julho de 1996)
- Numa primeira etapa, esta experiência foi realizada sob indução pós-hipnótica (hipnólogo/transmissor), na mesma sala
(Escola Superior de
Teatro, EST) e a curta distância (2/3 metros)
com o sujeito receptor (sujeito sensitivo/receptor) sentado à minha frente.
Poderá tratar-se de um processo comunicacional classificável, pela
Parapsicologia, como hiperestesia indirecta.
Note-se, na Fig. 1, que o “boneco” captado é praticamente igual
e da mesma dimensão que o “boneco” induzido, e foi realizado sem qualquer
hesitação, traço a traço, pela mesma ordem, tal como se pode observar no
correspondente registo em vídeo; apenas o desenho da boca, rectilíneo na
mensagem de partida (M1) e curvilíneo na mensagem de chegada (M2), bem como a
dimensão dos olhos, são diferentes.
Numa segunda etapa, realizou-se a experiência
exactamente nas mesmas condições que a anterior (EST), logo a seguir e com o
mesmo sujeito receptor (Catarina), mas em estado de vigília. Foi ainda pedido
que por baixo do desenho fosse escrito o nome do objecto captado. Note-se desde
logo a hesitação sentida a determinado momento durante a realização do desenho:
como se pode constatar pelo depoimento gravado em vídeo, o sujeito sensitivo
declararia, após a experiência, ter pensado de início efectivamente num cubo (M1), mas ocorreu-lhe depois a
ideia de uma casa (M2) e foi isso
que efectivamente desenhou e escreveu por baixo. Esta interferência, com toda a
probabilidade motivada pela falta de concentração inerente ao estado de
vigília, teria sido com certeza evitada por um estado hipnótico.
2ª experiência (Fig.
3, registada em vídeo) - Experiência realizada ainda nas mesmas condições que a
anterior, mas
com outro sujeito receptor (Inês), em estado de vigília. Importa referir que o sujeito receptor nunca
fora por nós hipnotizado. O desenho de partida representava uma “câmara de
filmar” (M1), o desenho de chegada (M2) surge ininterpretável e aparentemente
desestruturado. Contudo, poderá notar-se que os elementos geométricos
essenciais da imagem foram captados, o que indicia uma captação dos elementos sensoriais e não dos elementos
conceptuais: lá estão os três traços do tripé, o rectângulo e uma hesitação
indefinida na extremidade da “objectiva” - esses elementos, contudo, surgem tão
desarticulados/desintegrados que não chegam a estruturar a imagem de qualquer
objecto identificável.
Importante será observar desde já aquilo que parece ter sido
captado por hiperestesia: apenas os elementos visuais de natureza sensorial e
não a “ideia” do objecto, a sua “estrutura” – como aliás nas experiências
seguintes se continuará a confirmar.
3ª experiência (Figuras 4 e 5, experiência não registada em
vídeo, Agosto de 1996) - O sujeito receptor era inteiramente desconhecido do
hipnólogo e no entanto a experiência resultou logo de forma imediata durante a
primeira sessão hipnótica. O sujeito receptor (Henrique) estava sentado na mesma
sala, à minha frente, com o desenho original tapado (M1); encontrava-se em
estado de sugestão pós-hipnótica e
foi-lhe pedido igualmente que
escrevesse por baixo o nome do objecto captado
(M2). O resultado foi assombroso, quase perfeito e sem qualquer hesit
ação: o
nome e a imagem da “chave” (Fig. 4)
coincidiram (M1=M2), mas há a notar que o nome de M2 foi escrito depois de
efectuado o desenho, e por interpretação deste, não porque a ideia de “chave” tivesse sido de algum
modo recebida, mas tão só os movimentos ou as formas materializadas no desenho.
Uma vez mais, parece poder concluir-se que na comunicação
estabelecida (hiperestesia? telepatia?) o que foi captado foram apenas os
elementos sensoriais (pathos) e não os elementos conceptuais (logos).
A experiência seguinte (Fig.5), realizada nas mesmas condições
que a anterior mas em estado de vigília
(com o sujeito acordado, embora depois de ter sido
hipnotizado), já foi muito mais imperfeita. O que confirma a predisposição
comunicacional subliminar, em estado hipnótico, quanto mais não seja pela
concentração que a indução hipnótica propicia. O desenho de M1 (“sapato”) é
bastante semelhante, mas depois, ao insistir com o sujeito receptor para que
escrevesse o nome do objecto que desenhou, ele escreveria “NAVE” e não
“sapato”; isto após uma longa hesitação, a olhar para o próprio desenho por ele
efectuado, como se estivesse a tentar interpretar M2 e não M1. O que justifica
o esquema da comunicação cindida em duas mensagens, adiante referido.
Mais: o que aparentemente terá sido captado foi a “forma” do
objecto (elementos sensoriais) e não a “ideia” (elementos conceptuais).
4ª experiência (Figuras 6, 7, 8, sessão parcialmente
registada em vídeo, Julho de 1996) - Experiência múltipla e simultânea com
quatro sujeitos, dois hipnotizados
(um em hipnose profunda, Catarina, outro em hipnose ligeira, Jorge) e dois em estado de vigília (Carina e
Sara), encontrando-se o sujeito emissor (hipnólogo) numa sala contígua separada
por parede de tijoleira dupla.

Este experimento aproxima-se já do que consideraríamos
claramente “telepatia”, dado não ter havido qualquer contacto sensorial directo
de tipo presencial.
O desenho original, pensado por mim com algumas hesitações e sem
grande convicção, foi uma flor (Fig. 6), geométrica e esquemática, dentro de um
vaso (M1). 
O sujeito profundamente hipnotizado (Catarina) captou claramente
os elementos geométricos da flor (o círculo e a recta que o interceptava), mas não captou a imagem do vaso (Fig. 7,
primeiro M2); o sujeito em estado hipnótico ligeiro (Jorge) captou algo
parecido com um semi-círculo interceptado por uma recta, mas o “vaso”
transformou-se num “barco” (que
era na mesma um receptáculo) talvez pela adição
de uma atitude semi-consciente de integrar a forma em algo interpretável (Fig.
7, segundo M2). Contudo, ainda que M1 e M2 possam assemelhar-se um pouco na sua
forma de expressão (comunicação sensorial), em nada se assemelham na matéria do
conteúdo (comunicação conceptual).
Quanto aos dois outros sujeitos em estado de vigília, um (Carina) desenhou um “carro” (Fig. 8), o que
nada tinha a ver com M1 (M1 e M2 = 0%), e outro (Sara) desenhou uma “flor”,
curiosamente tal como eu, enquanto sujeito
emissor, a tinha pensado inicialmente, ainda que depois, por razões de
facilidade, tenha optado por um esquematismo geométrico maior, para evitar
propositadamente o estereótipo que afinal ficou registado! Captação da “imagem
mental” e não da “imagem formada”? Mero acaso? Pessoalmente estou em crer que
sim, que se tratou aqui de mero acaso, ao qual precisamente eu quis fugir
contornando o estereótipo...
5ª experiência (Figuras 9, 10, 11) - Sessão realizada na
Universidade Fernando Pessoa, a 23 Abril de 1997, no final de uma aula de
Semiótica, com mais de uma dezena de alunos de Ciências da Comunicação a
assistirem como testemunhas participantes; o experimento foi realizado com o
mesmo sujeito sensitivo (Catarina) das experiências 1 e 4, e porque se tratou
de uma demonstração quase improvisada, não ficou registado em vídeo.
Na mesma sala, frente a frente, em estado de vigília (Fig. 9): M1 era uma
“espiral”, M2 foi igualmente a mesma figura, curiosamente desenhada em sentido
de rotação inverso (por estarmos frente-a-frente?), mas interpretada como
“vento”. Importa referir, neste caso de possível comunicação hiperestésica, que
eu me voltei de costas para as pessoas presentes de modo a que elas pudessem
ver claramente o desenho efectuado por mim e assim, se fosse o caso,
funcionarem como “amplificadores” mentais... Curioso será observar que o
sujeito-receptor desenhou a figura sem qualquer hesitação logo que eu próprio
terminei, mas desenhou a curva em sentido de rotação oposto e enganou-se uma
vez mais na “palavra-ideia”!
A etapa seguinte baseou-se na ideia de “pirâmide”, ideia que me
foi sugerida por uma aluna presente para que não ficassem dúvidas sobre
qualquer hipótese de combinação prévia com o sujeito-receptor. De notar que eu
estava
pouco concentrado na ideia de pirâmide, mas
antes em como a concretizar visualmente de maneira esquemática, tendo por isso
desenhado um simples triângulo e escrito por baixo a palavra “pirâmide” (M1); o
sujeito sensitivo, agora sob hipnose
e de olhos abertos, fixou-me atentamente na testa e de imediato realizou o
desenho de um “triângulo” sem a menor hesitação, enganando-se contudo, uma vez
mais, no nome-ideia, para o qual
escreveu “triângulo” (Fig. 10). No que respeita aos nomes subpostos, parece
assim, com toda a evidência, ter sido efectuada pelo sujeito receptor uma simples
interpretação do desenho (M2) realizado por ele próprio, e não porque tenha
captado a ideia directamente de mim, enquanto sujeito-emissor.

Finalmente, numa terceira etapa (Fig. 11), regista-se aqui uma
experiência realizada sob sugestão
pós-hipnótica na mesma ocasião (UFP), mas em salas contíguas. Importa
referir que eu, enquanto sujeito-emissor, estava absorvido pela ideia da “cobra” enrolada em
torno de
um bastão (M1), algo parecido com o símbolo que os médicos usam nos
carros, mas que não conseguia evocar com nitidez. Fui para outra
sala;
e o sujeito-receptor, sob hipnose, foi induzido a “captar” o meu desenho e a
escrever o respectivo nome no prazo de dois minutos. O tempo foi cumprido com
exactidão, o desenho realizado instantaneamente sem qualquer hesitação (segundo
as testemunhas presentes) mas quando regressei à sala fiquei decepcionado com o
resultado obtido em M2: “carro”! A experiência pareceu ter falhado por
completo. Contudo, foi-me depois observado por uma aluna - e dei-lhe razão - que
afinal os elementos geométricos essenciais do desenho M1, a recta e as linhas
circulares,
estavam em M2, só que estruturados e articulados de outra forma e
por isso mesmo interpretados como
“carro”. De notar, segundo as testemunhas presentes, que houve uma longa pausa
por parte do sujeito receptor entre a realização do desenho, que foi
instantânea, e a escrita do nome por baixo...
Uma vez mais se constatou, no âmbito do contexto descrito, que a
componente sensorial da comunicação hiperestésica ou telepática foi
parcialmente conseguida, ao passo que a componente conceptual resultou nula!
6ª experiência (Figura 12) - Uma outra experiência avulsa
mais recente (Março de 2002) foi realizada com um outro sujeito (João) em
estado de sugestão pós-hipnótica: a sugestão foi a de que ao abrir os olhos
iria ser capaz de captar numa sala contígua as imagens
por mim feitas no papel
e de as legendar com os respectivos nomes. Deu, entre muitos outros, o seguinte
resultado:
Ilustração
12
Os tempos de execução dos desenhos entre uma sala e outra foram
controlados por três observadores circulando entre os dois espaços.
Cumpre observar que, neste caso particular, aquilo em que eu
estava realmente a pensar era numa “pirâmide do Egipto”, mas esbocei no papel
apenas um triângulo esquemático por razões de facilidade. Contudo, a minha
surpresa foi considerável quando pude observar que a imagem captada pelo
sujeito não era propriamente a que eu tinha materializado no papel mas antes
aquela em que estivera sempre de facto a imaginar todo o tempo! Acresce dizer
que se escrevi ao lado a legenda “Egipto” foi inconscientemente para associar a
imperfeição da imagem com aquilo que eu tinha realmente em mente: as pirâmides
do Egipto. O resultado foi perturbadoramente significativo, tanto mais que se
tratava do primeiro desenho feito por este voluntário e eu tão pouco podia antever como iria resultar, pois não o
conhecia. Com efeito, aquilo que o sujeito captou foi o que eu tinha “pensado”
desenhar (sem o chegar a fazer), como se ele tivesse captado directamente a
imagem da minha mente e não a partir da imagem materializada no papel...
As tentativas seguintes com o mesmo sujeito foram menos
conclusivas, talvez devido às condições de relativo improviso e sem grande
concentração da minha parte (pois era a primeira vez que o sujeito era
hipnotizado e estava demasiado atento ao modo como reagia). Significativo foi
também o facto de ele ter recordado que o primeiro desenho, que foi o que lhe
saiu melhor, foi precisamente aquele que se lhe impôs à mente de modo mais
espontâneo e quase automático.
De assinalar ainda a sua confissão, revelada no dia seguinte, de
que ficara bastante cansado com a experiência, a qual terá durado pouco mais de
meia hora. Testemunharia igualmente o esforço e a dificuldade sentida na
apreensão das “mensagens”, apesar do empenho em obedecer à “ordem”
pós-hipnótica. Admito, pois que se tratasse de um sujeito naturalmente pouco
dotado de predisposição extra-sensorial, a qual lhe terá sido como que
“forçada” pela indução hipnótica: daí o cansaço, quando me recordo de lhe ter
neutralizado quaisquer sinais de disposição negativa à saída do transe.
Apenas como apêndice conclusivo - e porque deste experimento improvisado
não foi feito qualquer registo, apenas restando o testemunho das pessoas que o
presenciaram - deixaremos aqui alguns apontamentos breves sobre uma experiência
conexa, mas de outro âmbito (percepção
remota?), realizada no mesmo dia, com as mesmas pessoas e nas mesmas
condições que a última série das anteriores (UFP, aula de Semiótica da
Comunicação, sujeito-receptor sob sugestão pós-hipnótica).
Sob hipnose, dou à Catarina a sugestão pós-hipnótica de que, ao abrir os olhos, a parede da
frente se iria tornar invisível e transparente, como se fosse de vidro, e que
ela seria capaz de descrever tudo o que via para lá dela. Importa dizer aqui
que nem eu tinha qualquer noção exacta de como era a sala contígua, nem a
Catarina, enquanto sujeito sensitivo, alguma vez tinha ido àquele lugar ou
sequer entrado naquele edifício antes desse dia. E apesar de tudo ter sido
improvisado no momento, lembrei-me de pedir à Paula (uma amiga que acompanhara
a Catarina) que se deslocasse para a outra sala até que alguém a fosse chamar.
Fiquei na expectativa, sem conseguir antever como aquilo iria
resultar...
E qual não foi o meu espanto quando, sem qualquer hesitação, a
Catarina começou a descrever tudo quanto “via”:
- Que vê?
- Uma parede.
- De que cor?
- É transparente.
- Que vê para lá da parede?
- Uma sala.
- Descreva o que vê nessa sala.
- Cadeiras. Uma mesa. Estores. Um aparelho de ar condicionado.
(Note-se que eu não tinha na minha mente nada do que ela estava
a enumerar, nomeadamente os estores, e muito menos o aparelho de ar
condicionado que nem sequer sabia se existia lá!)
E aproveitando a presença da Paula, que eu sabia ali estar,
perguntei:
- E a sala, está vazia ou está cheia?
- Vazia!
- !? Não vê ninguém lá dentro? Ora observe bem...
Adiante-se que eu estava a imaginar
a Paula sentada numa carteira, provavelmente a rabiscar algum papel para se
entreter... Até que a Catarina disse, com alguma hesitação:
- Está lá uma pessoa.
- Quem?
Eu esperava que ela reconhecesse a sua amiga, ou que ela lhe
“transmitisse” alguma coisa da sua presença. Nada. A Catarina respondeu:
- Um contínuo, talvez...
- E essa pessoa que vê mas não identifica, está sentada?
(Eu estava a imaginá-la, de facto, sentada.)
- Não, está de pé.
E com efeito, quando logo a seguir para lá me dirigi a chamar a
Paula, qual não foi o meu espanto ao vê-la de pé a fazer desenhos no quadro, o qual estava pendurado
precisamente na dita “parede invisível”.
Conclusões:
1) Não foi a minha mente que neste caso transmitiu ao sujeito
sensitivo o que quer que fosse, porque ele descreveu coisas (como o ar
condicionado e os estores) em que conscientemente nem sequer pensei nem sabia
existirem ali. Tê-los-ia captado
directamente por percepção remota?
Certo é que não fui eu quem funcionou como sujeito transmissor!
2) Poderia ter sido a Paula a funcionar como mente indutora da
descrição da Catarina, já que a amiga estava lá e podia ter de algum modo
consciência das coisas que lá se encontravam e foram descritas?
Não deixa de ser uma hipótese a considerar, mas porque é que a
Catarina não via a amiga nem identificava a sua presença ali?
Tratar-se-ia, não de um contacto entre duas mentes (indutora e
induzida), mas de um contacto directo entre a mente e as coisas materiais
(percepção extra-sensorial)?
3) Não deixa de ser significativo que ao descrever uma sala de
aula, de maneira tão pormenorizada, tivesse sido omitido precisamente o elemento mais característico de qualquer
sala de aula: o quadro negro! Ora
tal deve ter sucedido justamente porque o quadro estava pendurado na “parede invisível”: logo a Catarina
(sob sugestão pós-hipnótica) não o podia ver, tal como não deveria ver a amiga
que estava precisamente diante dele a fazer desenhos! Esta será a explicação mais
plausível para o facto de tanto o quadro como a amiga se terem tornado
“invisíveis”: ainda que tivesse sido detectada ali a presença de uma pessoa, ela, por isso mesmo, não era
identificável!
Em suma. Nesta experiência de aparente percepção remota uma
coisa é certa: não fui eu - enquanto hipnólogo - quem funcionou como sujeito
indutor, já que o sujeito sensitivo descreveu coisas que nem sequer me passaram
pela mente, coisas que estavam ausentes do meu conhecimento, e mais, que eu
conscientemente imaginava de modo diferente (por exemplo, sempre imaginei a
amiga sentada numa carteira e não de pé a escrever coisas no quadro).
A hipótese de se ter tratado de verdadeira percepção remota (contacto entre uma mente e coisas materiais) não
será pois de excluir.
Mas também será admissível que a mente da amiga pudesse ter
funcionado como emissora daquilo que ela própria estava a percepcionar dentro
da sala: neste caso tratar-se-ia de mais um caso de “telepatia”?
Infelizmente, as circunstâncias em que este experimento
improvisado ocorreu não me permitiram esclarecer tais dúvidas por contraprova,
dúvidas que só uma experimentação posterior poderiam esclarecer...
Como quer que seja - hiperestesia, telepatia ou visão remota -
facto insofismável é que ocorreu aqui claramente um fenómeno de “percepção extra-sensorial”.
5. Conclusões e análise semiótica
Estes experimentos, apesar de limitados e pessoais, permitem-nos
contudo extrair desde já algumas conclusões.
Antes de mais nada todos eles revelam que:
1 - Não houve nunca uma captação clara da dimensão semântica das mensagens de partida: quer dizer, do
sentido, do significado, da ideia ou do conceito a transmitir. Por outras
palavras (utilizando a terminologia de Hielmslev): em nenhum dos casos
descritos ocorreu transmissão nem da
matéria nem da forma do conteúdo da mensagem presente na mente do Emissor
(M1), mas apenas da sua forma, da sua configuração visual, ou seja, da sua dimensão sensorial - a forma de expressão, eis o que sempre
ficou materializado em M2.
2 - Tratou-se de um processo comunicacional sem “sinais”, e
portanto sem matéria de expressão.
Ou seja, de um processo comunicacional directamente indutor da forma de expressão, sem passar pela
transmissão da “matéria do conteúdo”. (Note-se que os desenhos aqui registados
apenas serviram para confirmar, a posteriori,
o resultado da comunicação estabelecida de um lado e de outro, não foram sinais
intermediários dessa comunicação). Por isso mesmo, a expressão corrente de «transmissão do pensamento» parece aqui
desajustada, ao passo que a expressão «telepatia»
(de pathos, sentimento) já se nos
afigura inteiramente pertinente.
3 - Importa ainda esclarecer
que, noutros casos e com outros “sujeitos” em estado hipnótico, estes fenómenos
de comunicação hiperestésica e telepática não ocorreram. E ainda que não
tenhamos feito quaisquer experiências sistemáticas orientadas nesse sentido
para que possamos extrair conclusões em definitivo, a nossa experiência neste
campo sugere que:
3.1 - Não é a hipnose, por si mesma, que
desencadeia estes fenómenos comunicacionais; a hipnose apenas os potencia nos
sujeitos “sensitivos” que já os manifestam mesmo em estado normal de vigília. O
estado alterado de consciência que a hipnose
propicia, talvez pela concentração e pela agudização da percepção criada no
sujeito, apenas potencia as
capacidades sensitivas de quem naturalmente já as tem, não as cria em quem as não tem.
3.2 - As faculdades PSI e hiperestésicas
parecem depender sobretudo do sujeito receptor (do “sensitivo” em estado
hipnótico) muito mais do que do sujeito emissor ou do “hipnólogo”.
Finalmente: que pode a Semiótica ajudar-nos a concluir da
análise comparativa destas experiências relatadas, ainda que o seu reduzido
número não nos proporcione quaisquer conclusões de carácter estatístico?
Sob estado hipnótico, no mesmo sujeito, poderá então
concluir-se:
a) haver uma amplificação das sensações e
portanto da hiperestesia em sujeitos sensitivos;
b) haver um aumento da concentração, sem
interferências da corrente espontânea de consciência nem do meio circundante...
Por outro lado, em lugar da comunicação habitual, mediada por
uma única mensagem unidireccional entre emissor e receptor:
E à Msg à R
ocorre aqui uma dupla comunicação simétrica, constituída por
duas mensagens dirigidas em sentido oposto, o que obriga a uma dupla
interpretação:
E à Msg 1 { ... PSI? ... } Msg 2
ß R
(zona do
desconhecido)
Entre M1 e M2 intercala-se um hiato que é preenchido justamente
pela zona do nosso desconhecimento: ondas mentais (PSI) de natureza ainda
ignorada?
Nas circunstâncias e nos casos aqui descritos, o receptor
interpretou sempre a forma de expressão da mensagem supostamente captada e por
ele mesmo materializada em M2, não a matéria de expressão directamente
elaborada em M1 pelo sujeito emissor, à qual não teve acesso directo.
Essa a razão por que a forma circular da “espiral” foi
interpretada como “vento” ou o “sapato” como “nave:
(espiral) -> (vento)
(sapato)
-> (nave)
![]()
+ sapato {..PSI..} + nave
forma da
expressão + substância do conteúdo forma da expressão +
substância do conteúdo
(pathos)
(logos) (pathos) (logos)
M1
M2
Nesta comunicação dupla, desdobrada em 2 mensagens, ocorreu também claramente (pelo menos nas circunstâncias concretas em que estes experimentos foram feitos) uma triagem entre a componente sensorial (pathos) e a