(Assistência de dramaturgia: Sílvia
Correia)
Alletsator
libreto de ópera
sobre texto
electrónico sintetizado em computador
(Para actores,
músicos e outros animais)
Porto 2001
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A dramaturgia deste
espectáculo assentou quase integralmente
em texto
electrónico gerado por computador
utilizando o
Sintetizador Textual Automático «SINTEXT-W»
(Ó P. Barbosa
& J.M.Torres - 2000).
Os textos
generativos fixados
foram desenvolvidos
a partir do livro infinito
«O MOTOR TEXTUAL»
(ÓPedro
Barbosa & Edições UFP, 2001).
A noção de
generatividade que lhe subjaz
conecta-se ao
conceito de «intertextualidade»:
daí que alguns
materiais gerados incorporem
fragmentos de
Herberto Helder, Robin Shirley e Angel Carmona, nomeadamente,
como elementos
lexicais e sintagmas estruturantes mixados nos textos originais.
Uma versão anterior
para a Web de
«O MOTOR TEXTUAL»
encontra-se também disponível na internet nos seguintes endereços:
http://cetic.ufp.pt/sintext.htm
http://directory.eliterature.org
Ficha técnica e artística:
«Alletsator» XPTO kOSMOS 2001 Produção: ESBOFETEATRO. Responsável de
produção: Sílvia Correia. Autoria e dramaturgia: Pedro Barbosa. Assistente de
dramaturgia: Sílvia Correia. Encenação: João Paulo Costa. Assistente de encenação:
Marina Freitas. Elenco de actores: Eloy Monteiro, Margarida Videira, Pedro
Almendra, Sónia Correia, Sony e coro de 12 actores/bailarinos. Músicos: Fernanda Alves e MC47 (Ângela Lopes, Cláudia
Teixeira, João Paulo Fernandes). Cenografia e figurinos: Nuno Lucena. Vídeo:
António Pires. Desenho de luz: Ricardo
Santos. Técnico de som: Nuno Oliveira.
Composição e direcção musical: Virgílio Melo.
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No início do espectáculo
far-se-á ouvir a seguinte mensagem de acolhimento:
Indecifráveis
amigos:
Sois os únicos sobreviventes diante da
loucura.
Os livros todos cantam em coro a morte
térmica do universo, tendes nuvens de electrões à volta do cabelo. As cadeiras vão
adormecer-vos o traseiro. Sois o retrato do espectador pós-moderno que assiste
parado à grande festa das imagens: envolto numa poalha de sinais. Por favor,
desliguem os vossos telemóveis, bips e relógios com sinal sonoro. Não é
permitido registar imagens, sons ou qualquer outro tipo de informação desta
viagem final. As notícias do milénio vão ficar para trás. Preparem-se para
a Grande Viagem: a nave XPTO levar-vos-á até um novo planeta. Na Terra que
deixais desfralda-se já o anúncio: “Planeta aluga-se!” Queiram pois
acomodar-se, prezados sobreviventes: isolem-se bem das coisas reais que gritam
lá fora. Arquivem estas palavras convexas. Abandonem-se ao universo dos sinais.
Tentem ser felizes... Até já!
Kaos: o caos à entrada dos
espectadores para a nave-cósmica «XPTO».
Grande explosão inicial:
começo ou fim do Mundo?
Terramoto. O Grande Portão
de entrada cai com estrondo metálico abrindo a sala-porão ao acesso do público
foragido. Os espectadores são varridos por uma tempestade de sons, luzes, sombras,
chuvas e trovoadas. Gera-se o pânico no claro-escuro. Forte ruído de ventos
ciclónicos e águas revoltas: helicópteros e aviões rasantes, sirenes de guerra,
brigadas de socorro, derrocada de prédios e colisão de veículos. Fogo de
artifício, chuva de morteiros. O público é imerso neste caos de sensações e
refugia-se na nave-bunker XPTO, orientado e conduzido por personagens
animalescas de uma nova Arca de Noé preparada para o Grande Salto Cósmico.
Animais, Animais, Animais (com escafandro e vestes espaciais):
vozes de animais.
A nave intergaláctica XPTO
prepara-se para a sua ascensão: tripulação e passageiros (espectadores) são os
últimos sobreviventes da tragédia planetária. A sua rota será o planeta ORUTUF
ORP.
Faz-se silêncio súbito. O
caos dá lugar ao cosmos: começa a ouvir-se a "música das esferas"
sobre a qual será entoado o Coro dos Filhos do Espaço.
Entretanto, numa gigantesca
projecção de raios-laser, a palavra MIF vai rodando no espaço até se
converter na palavra FIM.
Início da viagem cósmica em
direcção a «ORUTUF ORP»: o êxodo.
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(Animais, animais, animais:
vozes e vestes variáveis)
1 - CANTABILE
A - coro 1
Marte Vénus Iô Júpiter Saturno ...
onde paira a
lenda dos planetas
Perdidos no
oceano vazio:
... Poláris,
Riga, Sírius, Spiga
Mundos
gelados
mundos ardentes
numa viagem sem destino
Kocab, Mira, Algol, Altair
Palácios perdidos na eternidade.
Entre as galáxias
- na terra de nenhures
viajais com os
cometas...
Nascidos de
outrem, perdidos entre a poeira das estrelas
Para além do
tempo que corre em todos os universos
Arcturo
Andrómeda Vega - orbitando,
orbitando.
Mundos gelados -
A Vossa semente
dispersou-se através das eras de cristal
deste
universo-ilha...
para além do
tempo que corre em todas as direcções
Nascidos da
escuridão
perdidos
orbitando...
orbitando
Viajais com os
cometas
: não tendes lágrimas.
A Vossa semente
dispersou-se nas trevas dos anos-luz.
Sois filhos da eternidade,
alumiados pelas
lantejoulas do infinito.
Profetizais o
começo.
B - coro 2
Imaginai um tempo
no futuro longínquo
alumiado pelas lantejoulas do infinito
talvez
daqui a milénios,
quando a raça humana (se sobreviver)
estiver espalhada pelos confins da galáxia
perdida entre a poeira das estrelas
através de eras de cristal...
Orbitando
Viajando
com os cometas...
Mizar, Algor, Cephei, M81 -
orbitando, orbitando
numa viagem sem
destino
... Procion
Eridano Rigel ...
Mundos
gelados,
A vossa semente
dispersou-se através da música das esferas
Mundos
gelados -
viajais com os cometas...
orbitando... orbitando
ao ritmo da compassada dança do universo
no oceano
vazio... Orbitando...
sonhando
com lugares onde
abrigar-Vos
nos grandes
vazios entre as estrelas.
Para além do tempo que corre em todas as direcções
Explosões de
sóis, explosões de estrelas
deste
universo-ilha...
Marte Vénus Iô Júpiter Saturno ...
...fragmentos, estrelas à deriva...
Explosões de
sóis, explosões de estrelas
no
oceano vazio...
Sois filhos da
eternidade
ao ritmo da
compassada dança do universo
O
nosso canto é dedicado às crianças
que
vão nascer
lá nos
confins da galáxia:
para
quem as cidades e as florestas da Terra serão
apenas uma lenda.
Profetizamos o
começo?
Perdidos
nascidos da
escuridão
não tendes
lágrimas.
Imaginai os Vossos descendentes
viajando de geração em geração
à procura de mundos onde estabelecer-se
A Vossa semente
dispersou-se,
onde paira
a lenda das esferas
Sois filhos da eternidade,
Para além do tempo que corre em todas as direcções
Perdidos nos palácios da eternidade;
Marte Vénus
Iô Júpiter Saturno: orbitando numa
viagem sem destino
para a terra de
nenhures.
Profetizais a
viagem.
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OSIARAP
Personagens:
POTESTADE (em off), CORO DE ANJOS, PRIMEIRO HOMEM, PRIMEIRA MULHER
Potestade
O meu pensamento avança como uma força ou um sangue negro
nos rubros mapas sombrios e sonâmbulos.
Quem ouvirá em que símbolo está a voz da minha loucura?
Uma idade de sono crua vive em mim sem dar um passo.
O meu paraíso avança, como uma força
negra.
Uma serpente olha a paisagem com seu vício
indecifrável, cego.
A água precipitada - e a rude beleza da inocência.
Uma carne de amor, amando, inocente,
recolhe as constelações da chuva:
um pouco abaixo da linguagem.
Era depois da morte.
Arrefeciam colinas no sangue
posterior àquele enigma:
o pénis tem a sua inclinação perigosa.
Quando se toca, a floresta queima.
O sono tem uma combustão ao fundo: treme.
Digo: clareira.
Quem ama até perder o feminino?
Coro de Anjos
Quem ouvirá a voz da loucura?
Eles vêm devagar, e põem cores onde a infância se voltava
junto à música azul. Música lenta que não sobe e cuja idade se abaixa e
movimenta na obscura noite de um nome mortal.
O corpo tem uma Lua ao fundo, treme.
Há um crime sagrado onde o percurso aparece do ar.
Oh inteligência,
Quem se despe entre linhas encostadas, perguntamos -
quem ama até perder o frio?
Potestade
Uma serpente olha a paisagem: com
vício indecifrável, cego, abraça os planetas negros e molhados.
Arrefecem colinas. Jazem imóveis os
jardins das vozes.
Nascem do granito laranjas de mel,
laranjas de costas implacáveis molhadas pelo silêncio.
Ele viu o rosto de um pensamento.
Ofereço-te um vento,
um relâmpago.
Abres a velocidade que escutas,
e vês todas as visões atrás de ti:
as grutas de fabricar formas rápidas
e avulsas do pensamento.
- Ofereço-te um tempo.
Primeiro Homem
Ofereço-te um nome:
Ah, um Rosto
é o que eu procuro, a maçã de um tempo.
Sol de redes sobre a candura. Tem uma lua ao fundo.
Treme.
Olha eu queria saber em que coração se morre para ter uma
combustão e com ela atravessar redes leves e ardentes e crimes sem noite.
Primeira Mulher
Inocente lírio teatral: existe
nas noites um sono
para a poeira tremer, e o teu sono se voltar lentamente
cheio
de febre para uma rapariga terrível e fria.
Coro de Anjos
Combatem, a reluzir,
sob as víboras de praias implacáveis.
Arrancam-se os mortos dentre paraíso e flor, e dentre
ar e palavra.
Uma criança incandescente na parte
mais forte da chama.
Primeira Mulher
Não faças com que esse oxigénio selvático
te procure.
Leva planetas como se fossem ventos verdes
chegados de uma máquina transparente.
O paraíso está cheio de álcool gelado...
Primeiro Homem
Não.
Oh, não leves os buracos como mãos
passadas a limpo, em tua morosa
vocação até à vegetal rudeza
das constelações.
A lua. A loucura levanta ilhas cruéis durante a combustão
das linhas do cabelo.
Primeira Mulher
Quem se despe entre linhas encostadas? Pergunto: quem ama
até perder o frio?
Coro de Anjos
Então chegam grutas de história que batem em suas garras tremendamente
claras. Uma serpente de mel abraça os incêndios negros e molhados.
Quando se toca, a maçã cortada queima.
O nó tem uma música ao fundo. Treme.
Primeira Mulher
Abres a loucura em que escutas todas as garras na sua
inclinação perigosa.
Primeiro Homem
Quando se toca,
a carne queima.
Há quem fique num vento para assistir ao ar.
Quem se alimenta de distância , quem
se despe entre mãos
encostadas, pergunto,
quem ama até perder o sol?
Coro de Anjos
Eles vêm devagar e põem cores onde a chuva
se voltava junto à figura reclinada.
Primeira Mulher
Ofereço-te
um mapa.
Primeiro Homem
Ah, um campo é o que eu procuro
nas pedras tenebrosas .
Primeira Mulher
O coração tem a sua
inclinação perigosa:
a maçã cortada, uma noite mortal.
Um relâmpago.
Ah, um cheiro. O paraíso a respirar tão depressa...
Existe nas grutas um estio para
a poeira tremer, e o teu tempo se voltar lentamente.
A luz precipitada, os planos da noite, a neve forte:
a frágil beleza da loucura.
Primeiro Homem
Quem ouvirá esta Primeira Mulher desviada da minha noite
quando eu abrir o espaço terrível e suspenso?
Uma primavera:
a água, que é a chuva, os segredos.
Uma energia, uma inocência.
Primeira Mulher
Abres a
velocidade em que escutas todas as visões do rosto
E vês atrás de ti
as grutas,
convulsas, do
esquecimento.
Primeiro Homem
Evapora-se a noite, mas não sinto.
Velocidade do dia.
Coro de Anjos
E, ao abrir-se a maçã e o coração, a roupa volta-se para
trás.
Uma serpente abraça os jardins negros e molhados.
Os jacintos contorcem-se entre o corpo e as trevas.
Então a ausência levanta constelações
cruéis durante a combustão
das linhas do paraíso em suas semiluas de Rosto frio.
Primeiro Homem
Não faças com que esse ar te procure.
Leva anjos como se fossem sonos
chegados, transparentes.
Primeira Mulher
O paraíso está cheio de álcool gelado, os planetas
arqueiam-se pelo poder das vírgulas. Nunca ouvi chamar os assassinos pelo mel
dos seus retratos reclinados e brancos:
flor amedrontada à sombra de uma chuva sobre si mesma.
Não.
Oh, não leves os braços abertos, como víboras em tua
morosa vocação
até à carnívora gentileza das glicínias.
A tua palavra suspira
como um rosto louco.
Coro de Anjos
Ele viu a fria história;
Ele viu o tempo de um coração de noites brutais
acima das grutas molhadas pelo animal.
Ele viu o amor com seus corredores vertiginosos
a respirar dentro do paraíso.
Potestade
Abre a loucura em que escutas e vê atrás de ti o
esquecimento.
Isto, no Paraíso, há-de ficar.
Primeira Mulher
Quem ouvirá a doçura da minha morte quando eu abrir o
silêncio
sobre o sono suspenso?
A voz
vive em mim sem dar um passo.
Primeiro Homem
Isto há-de ficar neste silêncio nocturno.
Às vezes enlouqueço.
Pousa a Lua, desordenando os meandros
enquanto os planetas culminam como animais
e a tua cabeça suspira como um animal louco.
O paraíso tem a sua inclinação perigosa -
tem uma janela ao fundo: treme.
Há um crime sagrado onde
a inteligência aparece.
Primeira Mulher
Queria saber em que dia se morre, para ter uma dança, e
com ela atravessar víboras leves e ardentes e crimes sem altura.
Coro de Anjos
Uma serpente de tempo abraça os planetas negros e
molhados. É a loucura que se debruça:
olha a infância com seu nome indecifrável, cego.
Num tempo, sentado em flor,
uma ausência imersa cantava o ar.
Então a palavra arrefecia flores no sono posterior
àquele enigma.
Porque tem o lírio sono?
Idade oblíqua.
Vivem imóveis os jardins das vozes.
Nasciam glicínias de leite se alguém,
sorrindo, respirasse.
O nó tem uma música ao fundo: treme.
Primeiro Homem
Ah, um sopro, um sopro é o que eu procuro
nas ilhas tenebrosas. Por isso canta essa voz de um tempo
para a Lua.
Coro de Anjos
Eis o cenário teatral: um Rosto a respirar täo depressa,
e a andar tanto, e a correr
tão loucamente.
Primeiro Homem
Näo há mais do que a rapariga
no lugar do louco, à direita
e à esquerda.
Queria saber atravessar grutas leves e ardentes e crimes
sem magia.
Primeira Mulher
Existe na terra um sono
para a poeira tremer, e o teu Rosto
se voltar lentamente cheio de febre para o paraíso.
O pensamento tem a sua inclinação perigosa:
Quando se toca, a chama queima.
O relâmpago tem uma flor ao fundo: treme.
Anda-se pela voz com as terras a ferver, diz-se:
o nome, o pénis, as violas...
Primeiro Homem
Quem se despe entre paisagens
encostadas,
- pergunto.
Quem ama até perder o rosto?
Coro de Anjos
Eles vêm devagar e põem cores onde a infância se voltava junto
à música Azul.
Canta essa rosa para a fruta de um tempo.
Não há mais do que a mulher
querer saber respirar em sua água o vento, do sangue.
O suor das constelações do seu percurso inocente,
Inocente:
Ela não sofre e apenas sente a história,
a distância, os segredos...
Potestade
Abris a noite em que escutais todas as linhas do espaço?
E vedes atrás de vós as malhas de fabricar as formas
rápidas
do esquecimento?
Terrível é o paraíso da palavra,
e das noites paradas .
Primeiro Homem
O meu sangue parou diante de um paraíso mortal.
Passa. Frios planos sombrios.
A História arrefece redes no pensamento.
Coro de Anjos
Ela curva o espaço teatral .
O feminino sobe como uma noite ou um tecido doloroso
e negro nos frios planos sombrios e sonâmbulos:
Era depois do tempo.
O coração tem a sua inclinação perigosa.
Flores sobre a candura.
Quando se toca, a cara queima.
Há quem fique no fogo para assistir ao ar.
Potestade
Existe nas mãos um Paraíso.
Ele viu o Rosto com seus anjos vertiginosos
a respirar dentro dele:
o espaço bombardeado por refluxos celestes.
Há sempre quem morra para o jardim das vozes.